2 CORÍNTIOS 4.16-5.10 COMO FUNDAMENTAÇÃO EXEGÉTICA DO ESTADO INTERMEDIÁRIO EM JOÃO CALVINO


1 INTRODUÇÃO



Controvérsia. Para muitos essa palavra descreve bem a história da interpretação bíblica no contexto da escatologia. A despeito do quadro confuso quando o assunto é o futuro, ainda podemos encontrar elementos de concordância nas chamadas denominações históricas. Um deles é a condição de consciência ativa no estado intermediário entre a morte e a ressurreição. Podemos discordar sobre a natureza do milênio, da tribulação, do reino de Deus, mas sobre a consciência e o estado de bênção no estado intermediário, certamente não. A razão é simples: apesar de raros, os textos que tratam do assunto nos levam para o mesmo caminho. Os contrários, ou seja, os representantes da morte da alma ou do sono da alma, são poucos[1] e não encontram representantes nas denominações históricas e, por isso, tais doutrinas não são vistas como ameaçadoras.

Entretanto, essa não era a situação na primeira metade do século XVI. A idéia de um estado de inconsciência entre a morte e a ressurreição ganhou destaque e parecia ser uma ameaça. Calvino revela no prefácio da sua primeira obra teológica, específica sobre o assunto, psycopannichya (doravante a denominaremos psicopaniquia), acreditar que tal perspectiva não iria ganhar muitos adeptos e logo se esvaneceria. Contudo, nas palavras do próprio Calvino: "O resultado, porém, foi diferente do que esperava. Esses tagarelas têm se esforçado tão ativamente que já tem atraído milhares para sua insanidade"[2].

O consenso quanto a esse assunto, entretanto, não descarta completamente a possibilidade de discussão. Há pressupostos antropológicos e lexicais que ainda podem ser reavaliados; há detalhes envolvendo o estado intermediário além do estado de consciência, como, por exemplo, a existência de um "corpo temporário" ou de uma "ressurreição imediata". Nosso foco, pois, nessa pesquisa não está na conclusão, ou seja, no consenso, mas no caminho seguido, especificamente a fundamentação exegética.

Aqui queremos analisar a visão de Calvino, especificamente a contribuição exegética de 2 Coríntios 4.16-5.10 para o estado intermediário. Após analisada a visão de Calvino, consideraremos a perspectiva de F. F. Bruce. A explicação para a escolha específica desse texto se dá primeiramente pela limitação de espaço. A análise de cada passagem resultaria numa obra de grande volume.

Em segundo lugar, a importância da passagem para o desenvolvimento da temática. Nos últimos anos tem se desenvolvido a idéia de uma "evolução" na escatologia paulina. E um dos textos usados para sustentar dessa tradição é exatamente 2 Coríntios 5.1-10. Para essa corrente, a passagem seria o "ápice revelacional" da escatologia paulina. Um dos representantes dessa tradição é o renomado escritor de Manchester, F. F. Bruce. Daí a razão de analisarmos suas conclusões em contraposição às de Calvino.

Por último, o trabalho justifica-se no fato de que a informação escatológica tem uma importância extremamente prática. Muito da ética cristã está atrelada a apelos escatológicos. E muitos problemas podem surgir quando não se entendem os dados escatológicos. A segunda carta de Paulo aos Tessalonicenses é um bom exemplo dos "efeitos nocivos" que os dados escatológicos (quando não compreendidos) podem gerar. Essa passagem, por sua vez, revela os efeitos positivos desses dados. Nas palavras de Paulo, "por isso, não desanimamos".

2 PSICOPANIQUIA

2.1 Contexto Histórico.

Antes de sair da França devido às perseguições, Calvino escreve sua primeira obra de cunho teológico – Psicopaniquia. Trata-se de sua obra mais específica sobre o assunto. Psicopaniquia é uma expressão grega que faz referência ao sono da alma. Falar de Estado Intermediário em Calvino, portanto, é falar de Psicopaniquia.

Diferente de sua primeira obra (edição comentada do livro de Sêneca, De Clementia), aqui Calvino preza pela exposição da Palavra e rejeita a especulação filosófica reconhecendo suas limitações quando o assunto é "alma" – sua origem e natureza.

A obra é datada de 1534, ou seja, é a primeira obra de cunho teológico do pastor de Genebra. A despeito disso, é, sem dúvidas, a obra mais negligenciada por seus estudiosos. Pouco se comenta (informalmente) e muito menos se escreve sobre ela. Talvez a única obra que temos disponível em inglês especificamente sobre Psicopaniquia é The Starting Point, de George H. Tavard.

Uma questão que surgem quando o assunto envolve Psicopaniquia é: Quem era realmente o escritor de Psicopaniquia? Era católico? Reformador? Sobre essa questão ficamos com as considerações de McGrath:

[…] a evidência não aponta para qualquer rompimento fundamental nessa fase como o que Calvino iria posteriormente designar como "as superstições do papado". Ele era adepto da Reforma, a esta altura compartilhando um ponto de vista já associado a muitos dentro da igreja francesa; não há, contudo, qualquer pista de um rompimento com essa Igreja. Calvino "ainda usava a máscara de um católico", […] "não pregava, orava, ou adorava de qualquer forma que fosse contrária aos costumes católicos". Além disso, a obra Psychopannychia não contém qualquer polêmica anticatólica. É difícil encontrar, mesmo que apenas um traço, de que a obra tenha sido escrita por um jovem recentemente convertido dos erros de seus anteriores costumes católicos[3].

Sobre essa fase da vida do grande reformador, Ronald Wallace cita o próprio Calvino: "Antes que houvesse passado um ano, todos os que tinham qualquer desejo por pura doutrina estavam continuamente vindo até mim para aprender, ainda que eu mesmo me sentisse como um mero noviço e um principiante"[4]. A despeito da incerteza de sua conversão e de sua imaturidade, o conteúdo da obra foi confirmado pelo próprio Calvino visto ter sido publicada em 1542.

2.2 Um Resumo

Como um excelente exegeta, Calvino preocupa-se em começar estabelecendo o significado das expressões envolvidas. Primeiramente ele reconhece a variação de significado na terminologia "sono da alma". Há os que admitem um estado de insensibilidade entre a morte e o dia do julgamento quando se dará o despertar do sono. Outros, contudo, negam a "real existência" da alma neste período entendendo que a alma perece com o corpo até o dia em que será ressuscitada com ele. Em resposta a essas visões, Calvino assegura que a alma é "uma substância, e após a morte do corpo vive verdadeiramente sendo dotada de sentido e entendimento"[5].

Antes de tratar diretamente com os textos envolvendo a existência pós-morte, Calvino trata com elementos pressupostos na análise dos textos (e.g., alma, espírito, imagem de Deus). No tocante a "alma" e "espírito" sua preocupação se dá primeiramente em reconhecer que o campo semântico de ambos os vocábulos é lato. Esse reconhecimento é importante primeiramente por uma questão de metodologia exegética, mas Calvino a reconhece também devido ao fato de que a falácia dos seus oponentes está exatamente em se tomar o "primeiro significado" e aplicá-lo rápida e obstinadamente em todas as outras passagens.

Sobre o uso de "alma" como "vida", Calvino entende tratar-se de uma metonímia visto que "a alma é causa da vida, e a vida depende da alma"[6]. Com Salmo 49.19; 1 Samuel 11.11 ele mostra que esse não pode ser único o significado do vocábulo. Reconhece outros significados como "existência humana" (Ex. 1.5; Ez. 28.4; Lv. 20.6) e "sopro" (2Sm. 1.9; At. 20.10; 1Re. 17.21).

Quanto ao "espírito", "literalmente 'sopro' e 'vento', e por essa razão é freqüentemente é chamado pnoh, [vento] pelos gregos"[7]; pode se referir a "algo vão", "indigno" (Is. 26.18); "o que é regenerado pelo Espírito de Deus" (Gl. 5.17). Sobre o uso dos termos (alma e espírito) juntos Calvino entende que "'alma' significa 'vontade' e 'espírito', 'intelecto'"[8]. Calvino preza pela distinção do espírito com o corpo.

Tratada a questão da alma e do espírito, o reformador passa a abordar a "imagem de Deus no homem". Calvino assegura que não se trata de "imagem corporal", pois a declaração "façamos…" no texto bíblico é uma referência a um diálogo dentro da Trindade, que por sua vez, é realizado por seres espirituais. Também não se trata da capacidade de domínio sobre os outros seres. Do relato da criação, Calvino afirma que a imagem de Deus é separada da carne. Para Calvino, nada pode sustentar ou carregar a imagem de Deus que não o espírito, pois Deus é Espírito[9]. A sede ou base da imagem de Deus, portanto, está no espírito[10].

Pensando na imortalidade da alma, Calvino cita Mt. 10:28 como prova de que a alma sobrevive a morte. Em suas palavras, "ou a alma sobrevive ao corpo, ou é falso dizer que tiranos não tem poder sobre a alma"[11]. Em resposta aos seus oponentes que diziam que a alma é assassinada com o corpo, porém perece visto que ressurgirá, Calvino diz: "eles devem admitir que nem o corpo é assassinado, visto que também será ressurreto"[12].

O texto segue com interpretações de incontáveis passagens para o entendimento do estado intermediário. Nossa pesquisa focalizará 2 Coríntios 4.16-5.10.

2.3 Os Anabatistas


No prefácio de Psicopaniquia Calvino afirma que a heresia do sono da alma estava sendo propagada pela "escória dos Anabatistas"[13]. Aqui queremos trazer algumas considerações sobre esse grupo.

Primeiramente, muito do que é dito sobre esse grupo ainda é obscuro. Assim como acontece com os Montanistas (séc. II), muito do que sabemos dos Anabatistas vem de seus oponentes. Quando consideradas as acusações feitas contra eles muitas se revelam incompatíveis. Schaff reconhece a incompatibilidade das acusações, bem como assegura que uma história imparcial dos Anabatistas ainda é um anseio[14]. Além disso, algumas referências a eles possuem um caráter genérico. Na Fórmula de Concórdia, por exemplo, temos no art. XII a seguinte declaração: "Os Anabatistas são divididos em muitas seitas, da quais alguns mantêm erros maiores ou menores"[15]. Seguramente não havia uma "homogeneidade doutrinária" no grupo que recebia esse nome.

Basta uma lida rápida em algumas confissões (e.g., Confissão de Augsburgo [1530], Fórmula de Concórdia [1576], Primeira e Segunda Confissão Helvética [1536, 1566], Confissão Belga [1561])[16] e logo pode-se ver o grau de rejeição que esse grupo recebeu no período da Reforma. Eram considerados fanáticos perigosos e por isso foram combatidos severamente. A rejeição em Zurique levou muitos à morte pelo "terceiro batismo" (afogamento). Para alguns historiadores[17], eles foram responsabilizados injustamente pela tragédia em Münster.

A referência aos Anabatistas é uma constante nas obras de Calvino. Eles são duramente criticados pelo reformador. Ele os chama de "Katabatistas"[18], "ignorantes"[19], pessoas de "delírios perversos"[20], "tomam o papel de Cristo" ao dividirem ovelhas de cabras[21], grosseiramente "ignorantes de toda ciência"[22], "perturbadores da ordem política"[23], "heréticos" e "fanáticos"[24].
Sobre as crenças Anabatistas Schaff diz que:

As duas idéias de uma igreja pura formada por crentes e do batismo de crentes eram artigos fundamentais do credo Anabatista. Sobre outros pontos havia uma grande variedade e confusão de opiniões. Alguns acreditavam no sono da alma entre a morte e a ressurreição, um reino milenar de Cristo […] [25].

Devido à natureza incerta desse grupo, e para evitar injustiças, podemos tomar como exemplo a postura de Schaff quando, em algumas circunstâncias, na descrição dos anabastistas, os qualifica (e.g., anabatistas suíços, anabatistas moravianos). Aqui os denominaremos de "Anabatistas do Sono da Alma" entendendo que tal doutrina não era um distintivo desse grupo como era o batismo de regenerados, por exemplo.

3 O ESTADO INTERMEDIÁRIO EM 2 CORÍNTIOS 4.16-5.10
16 Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. 17 Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, 18 não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas. Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus. 2 E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial; 3 se, todavia, formos encontrados vestidos e não nus. 4 Pois, na verdade, os que estamos neste tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. 5 Ora, foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito. 6 Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; 7 visto que andamos por fé e não pelo que vemos. 8 Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor. 9 É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos agradáveis. 10 Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.

Aqui queremos nos concentrar nas grandes decisões de significado do texto. São elas: 1) O que vem a ser o "homem exterior" e o "homem interior"? Trata-se do mesmo "velho homem" de Romanos 6.6 e Efésios 4.22 ou um contraste de elementos da constituição humana (corpo e espírito)? 2) O tempo presente no primeiro verso indica garantia de cumprimento da promessa ou que a promessa de um edifício será cumprida limediatamente após a morte? 3) O que significa "edifício"? Um novo corpo em contraste com o corpo presente? Bênçãos espirituais ligadas à imortalidade? 4) Qual o melhor texto para o verso três? 5) Que tipo de nudez o texto se refere? Nudez de um novo corpo? Nudez moral? Nudez de bênçãos? Devemos ver a nudez como uma expressão grega ou hebraica?

3.1 Calvino


Em seu combate contra os "assassinos da alma" (palavras de Calvino), Calvino percorre quase toda a Escritura. São inúmeras as passagens tanto citadas como comentadas. Como já advertimos, focalizaremos 2 Coríntios 4.16-5.8. As razões já foram apresentadas. Para se ter uma idéia do pensamento de Calvino quanto a 2 Coríntios 5 usaremos Psicopaniquia, seu comentário do livro e sua magnum opus – As Institutas da Religião Cristã.

Calvino reconhece que o assunto deve ser tratado com muito cuidado. Aos que especularam, ele os denominou de "indevidamente curiosos"[26]. Revelando seu caráter exegeta Calvino declara: "é estulto e temerário indagar de causas desconhecidas mais profundamente do que Deus nos permita saber"[27].

Sobre os elementos de significado, comecemos com a expressão "homem exterior". O entendimento sobre o "homem exterior" tem sua importância visto que seu entendimento pode afetar nosso juízo quanto à "nudez" discutida a seguir. Sobre o "homem exterior", Calvino entende não ser o mesmo que o "corpo". Em resposta a Crisóstomo, e a todos que entendem ser uma referência ao "corpo", Calvino afirma que "a intenção do apóstolo era incluir tudo quanto tem a ver com a vida presente. Ele faz referência a dois homens, e entendemos por isso dois tipos de vida: um terreno e outro celestial"[28].

Também não é uma referência ao "velho homem". Este é equivalente a "carne" e "mundo"[29]. É "velho" em contraposição a "nova situação" iniciada na regeneração pelo Espírito. É a "velha" natureza que, ao mesmo tempo, morre e é "renovada" para a verdadeira vida[30]. Para Calvino somos tanto "velhos" como "novos".
Se "homem exterior" se refere à "vida presente" e não necessariamente à "tendência pecaminosa" da nossa antiga vida, a nudez, por sua vez, não é uma referência à "vergonha" ou à "culpa", mas um contraste entre dois estágios da vida. Assim, a vida presente é "nua" diante da vestimenta de "imortalidade" que receberemos no futuro. Nas palavras de Calvino:

[…] o apóstolo está descrevendo como Deus nos veste duplamente – primeiro com a justiça de Cristo e a santificação do Espírito, nesta vida; e, então, após a morte, com a imortalidade e glória. A primeira é a causa da segunda […][31].


Calvino não nega que essa vestimenta, chamada de edifício, envolve também o corpo da ressurreição. Para ele, tanto a "imortalidade" quanto o "corpo ressurreto" são possibilidades legítimas e oportunas de entendimento do "edifício". Sem descartar nenhuma das possibilidades, Calvino sintetiza: "[…] prefiro considerar que o estado de bem-aventurança da alma após a morte é o início desse edifício, mas que sua conclusão é a glória da ressurreição final"[32]. O contraste entre início e conclusão revela o cuidado de Calvino em não defender uma ressurreição imediata após a morte. Sua negativa de uma ressurreição imediata se dá pela implicação de que não podemos rejeitar a realidade do corpo morto. Para Calvino, a rejeição da ressurreição do corpo não somente vai contra textos claros como 1 Coríntios 15:53 (o contraste entre corruptível e incorruptível só faz sentido se houver mudança de qualidade); Daniel 12:2[33] e João 5:28-29, como também pressupõe que a alma é boa e que o que foi contaminado pelo pecado não pode ser purificado. Para ele, Hebreus 12:23 com a expressão "espírito dos justos" remove "toda" a dúvida de uma vida sem o corpo morto. Em suas palavras: "[…] palavras estas [Hb. 12:23] que nos fazem entender que somos associados aos santos patriarcas, os quais, ainda que mortos, cultivam conosco a mesma piedade, de modo que não podemos ser membros de Cristo, a não ser que nos unamos com eles […]"[34].

Sobre o vestir "duplamente", Calvino se estriba no uso da conjunção kai,. Aqui entramos no campo da gramática e da critica textual. Vamos, portanto, observar a tradução de Calvino em contraste com outras versões. Assim teremos uma noção da miscelânea de entendimento:

TEXTO
VERSÃO
Primeira sentença

Segunda sentença
se, estando novamente vestidos,não formos encontrados nus
Calvino
se, todavia, formos encontrados vestidos e não nus
ARA
se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus
ACF
porque, estando vestidos, não seremos encontrados nus
ECA
para que, revestindo-nos dela [morada do céu] realmente, não sejamos achados nus
TNM
porque, estando vestidos, não seremos encontrados nus
NVI
visto que nós, embora despidos, não seremos encontrados nus
Metzger

As três primeiras versões tomam a primeira sentença como condicional. O edifício ou habitação celestial se dará se formos encontrados vestidos. A sentença que segue torna-se uma tautologia. Ou seja, ser encontrado vestido é o mesmo que não estar nu. Calvino entende a condicional como uma diferenciação entre crentes e incrédulos. Só serão revestidos das bênçãos da imortalidade celestial se forem encontrados vestidos. Essa primeira vestimenta é o próprio Cristo e sua justiça[35].

As outras versões tomam a primeira sentença não como uma condicional, antes, como uma certeza. Ou seja, seremos revestidos de nossa habitação celestial exatamente por que não seremos encontrados em estado de "nudez". Com exceção da versão de Metzger, as outras versões mantêm a "relação tautológica" entre as sentenças.

Quanto a Metzger, a variação textual evkdusa,menoi (despidos) e evndusa,menoi (vestidos) o conduz à rejeição da relação tautológica das sentenças. Nas palavras do próprio Metzger: "[…] pois com evndusa,menoi a declaração do apóstolo é banal e mesmo tautológica, ao passo que com evkdusa,menoi é caracteristicamente vivida e paradoxal […]". [36] silêncio de Calvino quanto à problemática textual talvez tenha explicação na sua ausência de conhecimento da mesma.

O diferencial na tradução de Calvino fica por conta da expressão "novamente". Ele explica:

Esta interpretação é pressuposta pela palavra também (etiam no latim; kai, no grego), a qual indubitavelmente indica uma ampliação daquilo que já foi antes, como se Paulo dissesse que uma nova roupa seria providenciada para os crentes depois da morte, visto que já nesta vida eles foram vestidos por Deus[37].

A citação acima revela que Calvino via uma diferença do vestir no v.2 do v.3. Enquanto que a vestimenta do verso 2 faz referência ao "manto da imortalidade", o verso três foca numa vestimenta que antecede a do verso anterior. Essa mudança de foco, ou ampliação de informação, de um verso para o outro não se explica na mudança do vocábulo evndusa,menoi ("vestir" v.3) e evpendu,sasqai ("revestir" v.2). A mudança é ignorada por Calvino visto que todos os vocábulos são igualmente traduzidos como "vestir". O diferencial está na conjunção grega (kai,) traduzida por "novamente".

A contribuição de 2 Coríntios 4.16-5.10 para um melhor entendimento do estado intermediário não se distingue profundamente de outras passagens. Os temas são os mesmos: consolo, presença de Cristo, imortalidade e desfrute imediato. Para Calvino, nenhum texto traz detalhes desse estado. Usando suas palavras "é estulto e temerário indagar de causas desconhecidas mais fundamente do que Deus nos permita saber"[38]. Para Calvino o que podemos assegura quando o assunto é Estado Intermediário é que "Cristo está presente com elas e as recebe no Paraíso, para que desfrutem de consolação, e que as almas dos réprobos, porém, sofrem tormentos segundo seu merecimento"[39]. Esse silêncio nos basta e deve nos trazer contentamento.

3.2 F. F. Bruce.

Frederick Fyvie Bruce nasceu em Elgin no dia 12 de outubro de 1910. Recebeu grau de Mestre em Artes (B. A.) com as mais altas honras em Alberdeen e em Cambridge. Da primeira recebeu o grau de Doutor em Divindade.

Logo cedo F. F. Bruce se devotou à literatura antiga. Segundo Robert Mounce, na primeira parte do século passado, Bruce "tem devotado mais tempo e atenção a Paulo que qualquer outro escritor que trabalha com literatura antiga"[40]. São muitos os elogios tecidos ao mestre de Manchester. Ficaremos com a síntese de Julius Scott "seu conhecimento bíblico e teológico é enciclopédico"[41].

Se a magnum opus de Calvino é As Institutas, Sydney H. T. Page[42] entende que a magnum opus de F. F. Bruce é Paul: Apostle of the Heart Set Free de 1977 traduzida no Brasil como Paulo o apóstolo da graça: sua vida, cartas e teologia. Esse será o principal documento pesquisado.

Como Calvino, Bruce acredita que o texto faz referência ao estado intermediário. Entretanto, diferente de Calvino, Bruce entende que temos aqui detalhes importantes e completamente novos. Para ele houve uma "mudança de perspectiva" em Paulo no tocante à morte. Essa mudança se deu devido à experiência crítica na Ásia descrita em 2 Coríntios 1.8-10. Nas palavras de Bruce:

Nessa época [na Ásia] a morte parecia tão certa que não havia escapatória à vista, mas quando o livramento lhe abriu as portas, contrariamente a todas expectativas, o apóstolo o saudou como exemplo do poder de Deus para ressuscitar os mortos[43].

Em outra obra ele exemplifica melhor os efeitos da mudança de expectativa em Paulo: "[…] dali em diante [experiência na Ásia], ele trata a possibilidade de morrer antes da parusia mais provável"[44]. Para Bruce, a partir desse momento a pergunta "Qual seria o estado existencial entre a morte e a ressurreição?" ocupou seu "pensar teológico" de Paulo. A resposta desse "novo pensar" é exatamente o que encontramos em 2 Coríntios 5.1ss. A passagem, portanto, é a maior colaboração de Paulo sobre a questão[45].

Bruce entende que o "sabemos…" de 2 Coríntios 5.1 não faz uma referência a uma "verdade geral" como, por exemplo, a declaração de Filipenses 1.23 "sabemos que estaremos com Cristo". Aqui temos uma nova informação. A de que "é necessário receber algum novo tipo de corpo na hora da morte – e ele [Paulo] tem certeza de que isso é o que nos espera"[46].

Divergindo de Calvino, Bruce afirma que "Paulo não podia imaginar a imortalidade sem ressurreição; para ele, um corpo de algum tipo era essencial à personalidade"[47]. "A morte física não significa um hiato sem corpo"[48]. O teólogo de Manchester entende que a idéia tradicional de "alma que nunca morre" é uma herança Greco-romana, que por sua vez nos impede de entender a antropologia paulina – que é hebraica. Numa "simplificação exagerada" (expressão de Bruce): enquanto para os gregos o ser humano era uma alma dentro do corpo, para os hebreus ele era um corpo dotado de alma.

Bruce acredita que a questão específica do "corpo" é focada na passagem. Como vimos, Calvino entende que o corpo é considerado na passagem, porém, dentro do escopo maior da imortalidade ou do que ele chama de "estado de bem-aventurança". Enquanto para Bruce a vestimenta é o corpo recebido, para Calvino trata-se do "manto da imortalidade"[49].

Observe sua colocação quanto aos vocábulos "edifício" e "veste": "Isso, que nesta frase, é chamado de 'edifício', mais adiante é identificado como uma veste […] Não importa, porém, se a figura usada é de um edifício ou de uma roupa, é um corpo – o novo corpo imortal – que está em vista"[50]. Esse novo corpo não é uma "indumentária temporária" [51] ou uma "unidade coletiva" [52] (o corpo de Cristo) é exatamente o mesmo corpo referido em 1 Corintios 15. Bruce entende que a ressurreição em 1 Coríntios ocorre na parusia "enquanto aqui [2 Conríntios 5.1ss] Paulo parece dar a entender que os que não sobreviverem até a parusia, receberão o novo, imediatamente quando morrerem"[53]. Daí a razão para não se esperar a parusia, pois "a passagem do corpo velho para o novo, que Paulo prevê aqui [1 Coríntios 15], será tão instantânea que não haverá intervalo de 'nudez' consciente entre um e outro"[54].

Aqui surge uma questão: "Qual a visão de Bruce sobre o corpo da ressurreição em 1 Coríntios 15?". Primeiramente Bruce entende que nessa passagem temos a maior contribuição da teologia paulina sobre a questão. Em contraposição à chamada "ressurreição espiritual" (um tipo de gnosticismo incipiente, ou seja, que negava a ressurreição corporal) Bruce declara:

[…] para Paulo dificilmente seria ressurreição, no verdadeiro sentido da palavra. Nessa 'ressurreição espiritual' são os 'membros' interiores e invisíveis que ascendem, vestidos de uma nova 'carne', espiritual, para o que a aparência de Moisés e Elias no monte da transfiguração é citada como precedente. Para Paulo, a ressurreição incluía uma ressurreição futura do seu povo, que seria uma ressurreição corporal, como foi a dele[55].

A ressurreição para Bruce, portanto, é corporal. Aqui surge outra questão: se temos em 2 Coríntios 5.1ss uma referência à ressurreição de 1 Coríntios 15, e que essa ressurreição se dá imediatamente após a morte, como explicar a existência dos "sepulcros cheios" em contraste com o "túmulo vazio" de Cristo? Se os corpos que levamos aos sepulcros são os mesmos da ressurreição, como explicar essa transformação imediata?

Bruce explica fazendo um contraste entre a nossa "perspectiva histórica terrena" e a "consciência" de quem morre. Observe suas palavras:

A tensão criada pelo intervalo proposto entre a morte e a ressurreição pode ser avaliada hoje em dia, se for sugerido que, na consciência do crente que faleceu, não há intervalo entre a dissolução e revestimento, por mais longo que seja o intervalo medido pelo calendário da história humana terrena[56].

Com tal observação Bruce pressupõe outra medida de tempo para os mortos. Ele foge da concepção do sono da alma quando afirma que, na consciência do falecido, não há intervalo de tempo. Ao mesmo tempo propõe uma "ressurreição imediata" fugindo da concepção de uma existência sem corpo ou de um corpo intermediário. Assim, para Bruce, em 2 Coríntios, temos uma grande novidade quanto ao Estado Intermediário: receberemos o corpo ressurreto e espiritual de 1 Coríntios 15.

4 AVALIANDO AS VISÕES

4.1 Duas questões fundamentais.

Se há um consenso sobre essa passagem é que ela é deveras complexa, ou seja, o consenso é quase inexistente. As concepções envolvendo a passagem são muito variadas[57]. Aqui queremos apresentá-las:
  1. Corpo Intermediário: Essa visão defende que entre o corpo yuciko,j e o corpo pneumatiko,j há um "corpo intermediário". Segundo essa perspectiva a "nudez" referida no texto representa a morte e "vestir" o recebimento desse corpo intermediário (adeptos cf. nota 56).
  2. Ressurreição Imediata: exposta acima através da visão de F. F. Bruce[58].
  3. Visão Corporativa: Essa visão defende que não temos aqui uma referência ao estado intermediário, antes, às solidariedades corporativas inerentes em Adão e em Cristo (adeptos cf. nota 57).
  4. Estado Incompleto ou Completo: crer na existência consciente da alma sem o corpo. A passagem aponta para duas possibilidades: estar vivo na volta de Cristo e ser revestido (v. 2-3) – a melhor condição (condição completa) ou morremos ("ser despido", v.4) – comparativamente inferior a primeira visão, porém superior a vida neste corpo terreno visto que assim estamos "ausentes do Senhor"[59].
  5. Bênçãos da Imortalidade: assim como a visão anterior, essa escola entende que há existência consciente da alma (ou espírito) sem o corpo. Porém, a "habitação celestial" não é uma referência ao "corpo", antes à uma gloriosa existência em contraposição a nossa presente existência[60].
  6. Sono da Alma: definida no corpo do trabalho (adeptos cf. nota 1).
São muitas as perguntas que surgem no primeiro contato com o texto[61]. A despeito da grande variedade de visões, essas variações se dão por duas questões determinantes: Primeiro, se na referência à "habitação" ou "edifício" em 5.1 temos alguma informação específica sobre o corpo post mortem (visões 1, 2 e 4); uma referência a "comunidade cristã" (visão 3); ou, somente informações gerais sobre as bênçãos da imortalidade (visão 5).

Delimitando a problemática: Caso tenhamos uma referência ao corpo post mortem ele ou é o corpo da ressurreição descrito em na primeira epístola aos Coríntios que será recebido imediatamente (visão 2), ou é um terceiro corpo (visão 1); ou ainda, é o corpo ressurreto, porém numa declaração proléptica (visão 4). Caso seja uma referência geral às bênçãos da imortalidade (visão 5), o texto fará silêncio quanto aos "detalhes antropológicos" (presença ou ausência de corpo) no estado intermediário.

A segunda questão determinante é: se o texto exige um tempo imediato do recebimento da bênção alistada nesse verso ou temos uma declaração antecipatória (proléptica).

Decidida essas duas questões, chegaremos a uma das interpretações citadas supra. Nossa análise da passagem e das visões de Calvino e Bruce, portanto, se limitará a caminhar a um entendimento dessas duas questões.

4.2 Um corpo ou bênçãos da imortalidade?

Das duas questões acima apresentadas a questão do significado de oi=koj e de oivkodomh, é nossa crux interpretum. Contudo, antes de considerá-los faz-se necessário entender o background antropológico de Paulo visto que precisamos de um pressuposto antropológico uma vez lidamos com o vocábulo "corpo". Aqui Kistemacher nos ajuda:

Pela sua origem hebraica, Paulo tem uma visão bíblica dos seres humanos. Ele os vê como unidades completas, porque o corpo e a alma formam um corpo. […] A expressão ser vivente não significa um corpo e uma alma, mas se refere a uma unidade. Os judeus sempre consideraram corpo e alma como um só ser e usaram cada um dos dois termos para se referir à totalidade do ser humano. A separação entre corpo e alma pela morte não é coisa natural e contrária a intenção original de Deus [62].

Quanto ao uso de expressões gregas, especialmente "nudez", entendemos que Paulo pode usar a terminologia grega (seus ouvintes eram gregos) sem romper com os valores antropológicos hebraicos (bíblicos). Ou seja, o uso de terminologia grega ou hebraica (nudez também é uma metáfora hebraica[63]) não implica necessariamente na absorção dos seus referenciais. O significado dos termos se dará com a análise do contexto. A conclusão de Hughes, por exemplo, é a de que "[…] esses versos, longe de provar uma profunda influência do helenismo em Paulo, revela sua independência com respeito a esse helenismo – embora ele possa ter adotado (digamos adaptado) sua terminologia"[64].

Analisemos, portanto, o texto: A declaração "sabemos" (5.1) primeiramente revela que Paulo não está trazendo nenhuma informação nova. Entretanto, de peso revelacional. Ninguém sabe o que Paulo diz senão por revelação. Em segundo lugar, a expressão é seguida pela conjunção ga,r( o que nos remete ao contexto anterior. O parágrafo que imediatamente precedente está entre os versos 16 e 18. Esses versos, por sua vez, concluem (conj. dio,) o assunto ressurreição nos versos 13-15. O texto segue suas colocações até o verso 10. Assim, nosso parágrafo começa em 4.16 e termina em 5.10. Essa relação do parágrafo com 13-15 nos induz a pensarmos no corpo da ressurreição.

O texto é cheio de contrastes: homem exterior / homem interior (4.16); momentânea / eterno (4.17); leve tribulação / peso de glória (4.17); coisas que não se vêem / coisas que se vêem (4.18); temporal / eterno (4.18); terreno / celestial (5.1-2) tabernáculo /edifício (5.1); nu / vestido (5.2-3); mortal / vida (5.4). Os últimos contrastes (a partir de 5.1) também são metáforas (e.g., tenda, vestes e casa).

Dois detalhes importantes. Primeiro, a relação entre as metáforas. Entendida uma das metáforas, chegamos ao significado da outra. Observe que a metáfora da tenda que começa em 5.1 é repetida e unida à metáfora da veste no 5.4 formando "um todo". Aqui concordamos com as palavras de Bruce: "Não importa, porém, se a figura usada é de um edifício ou de uma roupa […]"[65]. Sem entrar no mérito do que significa, Bruce está certo ao entender que as metáforas apontam para o mesmo referencial.

Segundo, a relação entre os elementos contrastantes. O contraste entre as figuras exige um tipo de simetria entre elas. Assim, seja qual for o significado de "tenda", o "edifício" possui o mesmo referencial. Portanto, pensar em "tenda" como corpo e no "edifício" como uma habitação celeste não faz sentido visto que teremos dois referenciais em metáforas que apontam para o mesmo referencial em forma de contraste. Nesse ponto nos separamos de Calvino.

A construção em 5.1 é eva,n + subjuntivo aoristo. Segundo Vos, essa construção tem a força de futuro perfeito. Com isso, ele quer dizer que "a perda do corpo terreno se dará (mais cedo ou mais tarde) […] mas nada é dito sobre o ponto no tempo quando isso realmente acontecerá[66]. Ou seja, o texto não diz nem se está próximo, nem que está longe. Além da incerteza do ponto no tempo, a destruição da tenda, como estando numa construção condicional de terceira classe, é vista como possível, porém não provável[67]. Ou seja, poderia não acontecer e, na verdade, era o desejo de Paulo que realmente não acontecesse (cf. 5.4). A idéia de Bruce de que Paulo já não pensava na volta de Cristo, mas em passar pela morte não se fundamenta com as considerações até aqui feitas. Aqui nos separamos de Bruce.

Essa construção (condicional de terceira classe) juntamente com considerações feitas sobre as metáforas também não favorece a tese de Calvino. A lógica é a seguinte: primeiramente a condicional não garante a destruição do tabernáculo. Se ele representa somente a vida terrena como inferior temos um problema: não é certo (mas somente possível) que deixaremos essa existência terrena com suas limitações? No entanto, o próprio Calvino entende o tabernáculo como uma referência ao "corpo"[68]. Aqui ele cai na relação de contraste entre as metáforas. Pressupondo que as metáforas apontam para o mesmo referencial, teríamos o equivoco de o tabernáculo fazer referência ao corpo enquanto que a casa e o edifício a bênçãos da imortalidade.

Entendemos, portanto, que temos uma referência específica ao corpo. Primeiramente pelo fluxo do argumento: Em 4:13-15 temos uma referência à ressurreição. Isso segue uma declaração sobre o homem "exterior" e "interior" (v.16) bem como as metáforas da "tenda" e do "vestir" (v. 1-4). Em 5.6, 8 temos uma explicação da metáfora como uma referência ao "corpo". Temos o seguinte fluxo: ressurreição (corpo) à metáforas à corpo. Segundo, pelas relações entre as metáforas (igualdade de significado e simetria nos contrastes). Terceiro, pela condicional de terceira classe que coloca dúvida (provável) na destruição do tabernáculo.

Isso explica melhor o desejo de Paulo de não querer ser despido (ou seja, perder o corpo), mas revestido (receber um novo corpo sem perder o outro). Isso revelaria um aspecto da antropologia paulina: a importância do corpo e sua perda temporária com um "mal necessário".

4.3 Recebimento imediato, garantido ou antevisto.

A proposta do recebimento imediato do corpo (ressurreto ou temporário) se fundamenta primeiramente na gramática, especificamente no tempo do verbo e;comen, e na pressuposição antropológica hebraica de existência no corpo. Sobre a questão gramatical, Ladd diz que "o presente do indicativo pode ser um modo de Paulo simplesmente expressar completa certeza de que o [corpo] teremos"[69]. O tempo do verbo, portanto, não exige um recebimento imediato; somente que teremos.

Vos vai além, mostrando que trata-se não somente de uma questão de garantia, mas de projeção. Ele desenvolve implicações interessantes da relação do tempo de e;comen e sua relação com evn ouvranoi/j:

O verbo "temos" pode ter o sentido de possessão assegurada […] Ou […] pode ser um caso de projeção do mundo porvir. As palavras finais (evn ouvranoi/j) favorecem a última, pois elas não descrevem, claro, onde o corpo está agora ou existia desde o princípio. Isto seria uma confissão formal da preexistência da alma. […] O que a frase realmente quer dizer é que o céu é o lugar em que o corpo, quando recebido, será permanentemente possuído. Além disso, o termo "casa" que é o objeto de "temos" é usado do ponto de vista da permanente e real possessão na vida celestial. […] a ênfase [do vocábulo "casa"] repousa na existência do corpo como um produto final, uma "casa". O verso 1, portanto, deixa incerto quando o corpo será recebido e de nenhuma maneira implica sua preexistência[70].

Quanto à pressuposição antropológica hebraica em Paulo a questão é a seguinte: Se a antropologia paulina é realmente a descrita por Kistemaker, não teríamos a necessidade de uma ressurreição imediata ou um corpo provisório visto que a vida sem corpo para o judeu não existe?

O verso 8 nos ajudará. Ele nos garante que "sem corpo" estaremos com o Senhor. Essa declaração nos leva a eliminar a visão de uma ressurreição imediata, pois há um estado de existência sem esse corpo[71]. Aqui nos resta a opção de um corpo intermediário. Entretanto, trata-se de um elemento estranho ao texto. Entendemos que aqui o silêncio é a melhor opção. Primeiro, porque a articulação de um novo corpo além de especulativa é uma supervalorização do pressuposto antropológico hebreu.

Segundo, devido ao perigo da "absolutização da lógica clássica" que elimina a contradição ou paradoxos (nos seus termos) e muitas vezes não reconhece suas limitações. Em outras palavras, a lógica não pode nos levar a informações dessa natureza. Aqui, portanto, nos calamos.

5 CONCLUSÃO

A Bíblia nos ensina que a existência post mortem para os que estão em Cristo é de consolo, bem-aventurança e desfrute. Nesse ponto Calvino, Bruce e todas as denominações históricas andam juntos. Entretanto, com temor e tremor, discordo de ambos quanto ao uso de 2 Coríntios 4.16-5.10 como fundamentação exegética no entendimento desse estado de bênção – o chamado estado intermediário.

O texto trata especificamente da transformação do corpo (diferente de Calvino), que por sua vez se realizará no futuro, em um ponto específico na história da salvação (diferente de Bruce). Quanto ao Estado Intermediário propriamente dito, o texto revela que é superior à atual situação dos "vivos". Porém, é ainda um estado de "nudez". De certa forma, por preceder a ressurreição, estaremos ainda "incompletos" (em contraposição ao que seremos). Daí a razão de que, ser transformado enquanto vivo, é o grande desejo de Paulo e é tratado com uma situação superior. É a crença e o foco nesse estado post mortem bem como na transformação futura do nosso corpo que leva Paulo a declarar: "Por isso, não desanimamos" (2Co. 4.16).

6 NOTAS

1 Oscar Cullmann (Immortality of the Soul or Ressurrection of the Dead? New York: Macmillan Company, 1958, p. 152s) e B. F. Atkinson (Life and Immortality: An Examination of the Nature and
Meaning of Life and Death as They Are Revealed in the Scripture. [s.l.; s.e. s.d]. O primeiro, além do sono da alma, defende a ressurreição somente para crentes e como o segundo, a imortalidade condicional (aniquilacionismo). Apesar do peso acadêmico dos nomes supracitados, suas idéias não saíram da esfera acadêmica.
2 CALVIN, John. Psychopannichya em BEVERIDGE, Henry. John Calvin: Tracts and Letters. Grand Rapids: Baker, 1983, v.3, p. 378 [tradução nossa].
3
MCGRATH, Alister. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 91.
4 WALLACE, Ronald. Calvino, Genebra e a Reforma: um estudo sobre Calvino como reformador social, clérigo, pastor e teólogo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 20.
5 CALVIN, John. Psychopannichya.p. 383 [ itálico e tradução nossa].

6 Ibid., p. 384.

7 Ibid. p. 385.

8 CALVIN, John. Psychopannichya. p. 387 [tradução nossa].

9 Ibid.

10 Ibid.

11 Ibid., p. 391.

12 Ibid.

13 CALVIN, John. Psychopannichya. p. 379.

14 cf. SCHAFF, Philip. The Creeds of the Christendom. Grand Rapids: Baker Books, 2007, v. I, p. 841 [tradução e itálico nosso].
15 Ibid., v. III, p. 173 [tradução e itálico nosso].

16 cf. Ibid., v. III.

17 OLSON, Roger. História da Teologia. São Paulo: Vida, 2001, p. 428; SCHAFF, op. cit., v. I, p. 842.

18 Trocadilho entre as preposições gregas avna, e kata,. Assim, para Calvino, os anabatistas não rebatizavam (avna,); antes, eram contra (kata,) o batismo.
19 CALVIN, John. Commentary on Genesis. Wisconsin: AGES Software, 2000, p. 200.

20 Id., Commentary on the Psalms. Wisconsin: AGES Software, 2000, v.1, p. 31.

21 Id., Commentary on the Psalms. Wisconsin: AGES Software, 2000, v.1, p. 212.

22 Ibid., v.1, p. 1017.

23 Id., Commentary on the Prophet Isaiah. Wisconsin: AGES Software, 2000, v.2, p. 529.

24 Ibid., p. 543.

25 SCHAFF, Philip. History of the Christian Church. Massachusetts: Hendrikson, 1997, v. VIII, cap. III, 25§ [tradução e itálico nosso].

26 CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, iii, xxv, 6.

27 Ibid.

28 Id., João. 2 Coríntios. São José dos Campos: Editora Fiel, 2008, p. 128. [negrito nosso].

29 Id., As Institutas da Religião Cristã. iii, iii, 8, 9, 11.
30 Id., Commentary on the Epistle to the Romans. Wisconsin: AGES Software, 2000, p. 172.
31 CALVINO, João. 2 Coríntios. p. 136. [itálico nosso].

32 Ibid., p. 136. [itálico nosso].

33 Sobre Daniel 12, Calvino observa que "Deus não evoca dos quatro elementos matéria nova para plasmar homens, mas, antes, dos sepulcros evoca os mortos" (CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. iii, xxv, 7 [negrito nosso].
34 CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã., iii, xxv, 6.

35 cf. Id., 2 Coríntios. 2008, p. 136.

36 METZGER, Bruce. A Textual Commentary on the Greek New Testament. Broadway: American Bible Society, 1994, p. 511. Sobre uma terceira variação (evklusa,menoi) ele entende que "provavelmente surgiu devido a uma confusão paleográfica quando ekd- foi tomado como ekl-
37 CALVINO, op. cit., p. 136. [negrito nosso].

38 CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. iii, xxv, 6, p. 454-5.

39 Ibid.

40 MOUNCE, Robert H. The Contribution Of F. F. Bruce To Pauline Studies: A Review Article. Journal of the Evangelical Theological Society. v. 23, 1980, p. 67 [tradução nossa]

41 SCOTT, J. Julius Jr. Review of F. F. Bruce: Answers to Questions. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1973. Westminster Theological Journal Volume. 1974, v. 36, p. 402 [tradução nossa].
42 Comentário feito em uma resenha de outra obra de F. F. Bruce (Peter, Stephen, James and John: Studies in Non-Pauline Christianity) em Journal of the Evangelical Theological Society 1981, v. 24, p. 274. Faz sentido tal comentário visto que a obra é uma coletânea de palestras, artigos e outros escritos em um grande intervalo de tempo.
43 BRUCE, F. F. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Filipenses. São Paulo: Editora Vida, 1992, p. 60 [itálico nosso].
44 Id.,Paulo, o Apóstolo da Graça:sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2003, p. 302. [itálico nosso].
45 Diferente de Herman Riderbos: "A passagem para mais clara [sobre o estado intermediário] é, com certeza, Filipenses 1.20ss" (RIDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 561[ itálico nosso].
46 BRUCE, F. F. Paulo o Apóstolo da Graça. p. 302 [itálico nosso].

47 BRUCE, F. F. Paulo o Apóstolo da Graça. P. 302.

48 Ibid., p. 303 [itálico nosso]

49 CALVINO, João. 2 Coríntios. p. 136.

50 BRUCE, F. F. Paulo o Apóstolo da Graça. p. 303 [ itálico nosso].

51 Contra. R. H. Charles, (Eschatology: The Doctrine of the future life in Israel, Judaism and Christianity. New York: 1963, p. 458-61). CHAFER, L. S. Systematic Theology. Dallas: Dallas Seminary Press, 1974, v. 4, p. 414-5.
52 Visão defendida por ELLIS, Edwards Earle. Christ and the Future in New Testament History. BRILL, 2001, p. 147-164. Também em outra obra: Paul and His Recent Interpreters. Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 1961, p. 35-48. Ellis chama o corpo de "comunidade messiânica". THRALL, Margaret E.: Greek Particles in the New Testament em New Testament Tools and Studies, (Volume III). Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1962, p. 82s. Essa visão defende que não temos aqui uma referência ao estado intermediário, antes, às solidariedades corporativas inerentes em Adão e em Cristo.
53 BRUCE, F. F. Paulo o Apóstolo da Graça.op. cit., p. 303-4. [itálico nosso].

54 Ibid., p. 303. [itálico nosso].

55 Ibid., p. 300. [itálico nosso].

56 BRUCE, F. F. Paulo o Apóstolo da Graça. p.306. [itálico nosso].

57 cf. ZABATIERO, Júlio. Vestir, em BROWN, Colin [ed.] Novo Dicionário Internacional de Teologia do novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, v.2, p. 2635-8.

58 cf. HARRIS, Murray J. 2 Corinthians 5:1-10: Watershed in Paul´s Eschatology? Tyndale Bulletin v. 22, 1971, p. 39-45. DAVIES, W. D. Paul and Rabbinic Judaism and Christianity. New York: 1967, p. 309-19.
59 cf. HUGHES, Philip E. Paul's Second Epistle To The Corinthians. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1962, p. 100s. VOS, Geerhardus. The Pauline Eschatology. Grand Rapids: Baker Book House, 1979, p. 173-205. LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Edição Revisada. São Paulo: Editora Hagnos, 2003, p. 740. ERICKSON, Millard J. Christian Theology. Grand Rapids: Baker Books, 1998, p. 1188-9. CERFAUX, L. O Cristão na Teologia de Paulo. São Paulo: Editora Teológica, 2003, p. 199-212.
60 Além de Calvino, cf. HOEKEMA, Anthony A. The Bible and the Future, 1982, p. 94ss. RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo: a obra definitiva sobre o pensamento do apóstolo aos gentios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 564. HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 1557-8.
61 cf. KISTEMAKER, Simon. 2 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 233-4.

62 KISTERMAKER, Simon. 2 Coríntios. p. 224.

63 Ellis entende que "nudez" na perspectiva hebraica tem conotação de culpa e julgamento. Cf. Christ and Future in New Testament History. p. 157-60.


64 HUGHES, Philip E. Paul's Second Epistle To The Corinthians. Grand Rapids: Eerdmans, 1962, p. 156 [itálico nosso].
65 BRUCE, F. F. Paulo o Apóstolo da Graça. p. 303.

66 VOS, Gehaardus. The Pauline Eschatology. p. 188 (itálico nosso).

67 cf. WALLACE, Daniel B. Greek Grammar Beyond the Basics: an exegetical syntax of the New Testament. Grand Rapids: Zondervan, 1996, p. 669-99.
68 CALVINO, João. 2 Coríntios. p. 135.

69 LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, p. 740.

70 VOS, Gehaardus. The Pauline Eschatology. p. 188. [negrito nosso]

71 Quanto à perspectiva diferenciada de tempo de quem morre e de quem testemunha a morte cf. CULLMANN, O. Cristo e o Tempo. São Paulo: Custom, 2003, p. 100-7.

7 BIBLIOGRAFIA

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ZABATIERO, Júlio. Vestir, em BROWN, Colin [ed.] Novo Dicionário Internacional de Teologia do novo Testamento. São Paulo: Vida nova

Comentários

  1. Oi pastor, parabens pelo trabalho. O senhor
    está cada vez mais profundo e erudito, sem perder
    o carisma e a simplicidade.

    Queria saber se o sr. pode me passar seu e-mail.
    Preciso de uns conselhos seus sobre um assunto.

    Valeu,
    abração.

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  2. quando as pessoas eram ressucitadas onde estavam seus espiritos?

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    1. caro amigo, existe um mundo visível e material, existe um outro mundo, o espiritual ou da dimensão espiritual. quem entro na dimensão espiritual e ressuscitou foi apenas Cristo. Os demais apenas receberam a vida material novamente, tanto é que tornaram para lá novamente. Há histórias dalém morte, mas morte é morte e uma que a pessoa humana entra nesse estado a mente deixa de processar. Não há histórias dalém morte senão a de Jesus Cristo aquele foi ungido para vencer a morte. concluindo assim que analisar o lugar dos espíritos é só isso, existe um mundo deles e isso pode ser até mesmo nessa esfera que estamos.

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