PARADIGMAS INTERPRETATIVOS E UMA MEDITAÇÃO EM PRIMEIRA AOS CORÍNTIOS 13.8-13.




Certamente todas as colocações feitas em 1 Coríntios 13.8-13 têm implicações para o debate entre cessacionista e continuístas. Contudo, não é meu objetivo entrar nessa peleja – pelo menos diretamente – uma vez que não se pode fugir completamente dela se nos propormos a interpretar o texto.


As palavras que seguem são considerações exegéticas que, para mim, ganharam status de paradigmas ou pressupostos interpretativos. Ou seja, interpretações que ignorem ou contrariem as colocações abaixo são, a priori, censuráveis. Para mim, o que se segue abaixo é o “menor irredutível” quando o assunto é a interpretação de 1 Coríntios 13.8-10. Evidentemente que tais considerações podem perder tamanho status uma vez que entenda (e você pode me ajudar nisso) que o próprio texto as recusa.


Caso tenha dificuldade com a fonte grega, cliqueaqui para baixar. 

1.      A verdade central e desenvolvida a partir do verso 8 é: “o amor não falha” (NIV, ARC), “perece” (NVI) ou “acaba” (ARA) (pi,ptw [ou evkpi,ptw segundo o TMaj])Diferente dos dons, ele não pode ser “abolido” (katarge,w) ou “parado” (pa,uw)Ele “permanece” (me,nw – v. 13). Tudo que é dito a seguir tem como objetivo a ratificação dessa verdade: o amor não tem fim. No arremate da argumentação temos “permanece” em contraste com “jamais falha (acaba)”. A grandeza do amor (u`perbolh.n o`do.n cf. 12.31) está exatamente em permanecer mesmo com o advento do “perfeito” (perfeição). O que não acontece com a fé, com a esperança e com qualquer dom (cf. Rm. 8.24).


2.      A comparação/contraste é feita entre o amor e os dons (manifestações do Espírito) e não somente entre alguns dons (ou o conhecimento dado por eles) e o amor. A expressão comparativa “caminho sobremodo excelente” (u`perbolh.n o`do.n) em 12.31 é para com os dons. Assim, a presença de línguas, profecias e conhecimento é simplesmente exemplificadora e não exclusivista-limitadora. Deste modo, o que Paulo fala sobre línguas, profecias e conhecimento deve ser aplicado a todos os dons (e manifestações) citados anteriormente.


3.      A natureza da comparação/contraste é temporal. A relação entre os elementos dêiticos “quandoentão (o[tanto,te v.10, v.11 [2vezes]), “agora…então” (a;rtito,te v.12 [2 vezes], nuni,v.13) e a força lexical de “permanece” (v.13) em contraponto a “abolido” (katarge,wou “parado” (pa,uw) reforçam essa ideia e nos levam a concluir que as traduções da ARA (“O amor nunca acaba”) ou da NVI (“o amor nunca perece”) representam bem a intenção autoral. 

O “perfeito” (tele,ioj), portanto, não tem nuança de maturidadeA presença de um contraste entre infância e vida adulta não implica necessariamente maturidade ou continuidade. O contexto é claramente escatológico. São dois tempos. A vinda de um tempo (vida adulta) elimina as coisas de outro tempo (infância). É a diferença de “dois tempos”. Dois modos de existência, não crescimento entre os tempos. Não há progresso ou continuidade entre espelho e face a face, entre infância e fase adulta e entre em parte e perfeição. É claro que há continuidade entre a fase infantil e a fase adulta. É claro que há continuidade e progresso de conhecimento entre o que se vê no espelho e o que se vê diretamente, pois o objeto de conhecimento é o mesmo, mas o ponto de Paulo é o que não continua (descontinuidade) entre os dois tempos; entre o agora e o futuro. No futuro teremos perfeição; hoje não. No futuro ainda teremos o amor; os dons não. O mesmo acontece com a parábola do Senhor Jesus onde o reino é comparado a uma semente e uma árvore. A ilustração não exige crescimento, mas dois estágios no Reino de Deus. Novamente podemos dizer: é claro que entre a semente e a árvore há crescimento e progresso, mas esse não é o ponto da argumentação. Assim, a ideia de “parte e todo” da expressão evk me,rouj não exige continuidade. Não saberei o que é a parte pelo todo ou o contrário. O “todo” elimina “a parte”. A ênfase está na descontinuidade. Assim, a relação da expressão “em parte” (evk me,rouj) com o “perfeito”(tele,ioj) é de “parte e todo”, porém em descontinuidade.

Se o “perfeito” fosse somente uma ampliação ou completude e/ou maturidade do dom, a declaração comparativa-contrastante com “o amor não se acaba” não faria o menor sentido, pois teríamos a seguinte argumentação: o amor “jamais acaba”, os dons também não acabam, eles serão complementados e/ou aperfeiçoados. A pergunta que não quer calar é: então em que sentido o amor jamais acaba ou perece em contraste com os dons? Em que sentido o amor é o caminho sobremodo excelente? Quando o “em parte” chega à perfeição, só fica o amor e não o amadurecimento dos dons (o que pressuporia ainda a sua permanecia). O fato é que os dons não permanecem com a vinda da perfeição.


4. A relação entre evk me,rouj e os dons é explicativa (ga,r). Os dons irão acabar (katarge,w) porque eles se dão evk me,rouj. Reconhece-se que a expressão “em parte”, em si, não tem denotação temporal, mas partitiva. Contudo, a estrutura maior da argumentação dá a ela uma conotação temporal. Os dons são evk me,rouj porque pertence a esse tempo – o agora (cf. v.12 - a;rtito,te [2 vezes]). É “em parte” porque não “permanece”. Nosso “agora” é “em parte” porque não chegamos ainda à “perfeição”. A expressão é uma referência ao “agora” (cf. v.12 - a;rtito,te [2 vezes]). A natureza “em parte” marca o nosso agora. O “perfeito” não completará o “agora” (numa relação de continuidade), mas o fará “desaparecer” (cf. v.10). A chegada ou vinda (elemento temporal) do “perfeito” ou da fase adulta (v.11) faz com que o “em parte” desapareça e com ele os dons, o espelho, a infância e tudo que é temporal – ficando somente o amor. 





5.      Quando se diz (e eu dizia isso) que o “perfeito” é a “maturidade revelacional” (apontando para o cânon), além de ignorar o contexto escatológico (cf. ponto 3 e 4 – contraste temporal); tal perspectiva iguala revelação com inspiração. Ora, o campo da revelação é muito maior que o da inspiração. Paulo (cf. 2Co. 12.4), João (cf. Ap. 10.4), os profetas de Corinto (1Co. 11-14), as filhas de Felipe (21.9) receberam revelações que não foram registradas (inspiração) para a comunidade do povo de Deus de todos os tempos e lugares. Toda revelação deveria ser julgada pela revelação inspirada – escrita (Dt. 13.1-2). Nem toda revelação tem autoridade sobre todas as pessoas de todos os tempos. Somente a mensagem inspirada e preservada em forma escrita tem essa autoridade.


6.      A vinda do tele,ioj “perfeito” (ou “perfeição”) revela a temporalidade, e por conseguinte, as limitações dos dons. Eles não duram para sempre. Portanto, o tele,ioj ainda não veio, pois dessa forma não teríamos agora (nuni,) fé e esperança (v.13). Eles permanecem porque o “perfeito” ainda não veio. Quando este vier, somente o amor permanecerá – ai está sua grandeza.


Findarei com uma meditação. Geralmente quando o assunto é 1 Coríntios 13, o amor fica de lado em favor da identidade do “perfeito” e da temporalidade (ou não) dos dons. Considerando a tese maior de Paulo (a natureza eterna do amor), um dos primeiros pensamentos que me veio à mente foram as palavras do ateu Jean-Paul Sartre: “nenhum ponto finito faz qualquer sentido, se não tiver um ponto de referência infinito”.


É exatamente isso que Paulo está nos assegurando nos primeiros três versos do capítulo 13. Ou seja, o amor (avga,ph), que é eterno, é o que dá sentido a tudo. Pensei em Adão e na essência da lei – amor a Deus e ao próximo. Seguramente essa mesma Lei já estava lá tanto na consciência de Adão como na ordem de Deus – não comerás, porque morrerás. Comer do fruto era desobedecer a Deus (portanto, não amá-lo) e não pensar no próximo (Eva e descendência), pois traria morte para eles.


Lá estava o primeiro homem em um lugar perfeito e com uma mulher perfeita. Contudo, não amando sua esposa (e descendentes também) e muito menos a Deus, pecou. Poderíamos dizer: “Adão, oh velho Adão, não vês que é o amor que dá sentido ao paraíso, à sua relação com sua esposa e tudo mais? Ele, o amor, é eterno, as demais coisas são relativas. Adão, velho homem, não substitua o eterno pelo passageiro; antes, tome o passageiro à luz do eterno. Oh Adão, se não tiver amor, nada aproveitará, nem mesmo o paraíso; se não tiver amor, nada será”. 


É o eterno que dá sentido ao passageiro. O amor jamais acaba!



Comentários

  1. Que Deus nos conceda a sabedoria de entender o eterno(amor) e assim ter o sentido do passageiro. Complexo e muito bom!
    Abração Pr. Rômulo.

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    1. Diz Janne! Oremos por isso! Obrigado por seu feedback! Abração!

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  2. Pastor, não sei se concordo completamente, especialmente com os parágrafos 5 e 6. Veja bem, eu concordo que a menção de dons de línguas, profecias são exemplificadoras. No entanto, entendo que Paulo está falando que precisamos desses dons porque nosso conhecimento é "em parte". Ou seja, ele diz que é porque "em parte" conhecemos QUE "em parte" profetizamos.
    Desta forma, penso que o "em parte" diz respeito mais ao estado de conhecimento, do que a tempo. Para mim, não há muito sentido, se entendi bem seu texto, Paulo dizer que "conhecemos agora por isso agora profetizamos" com o argumento total.
    Para mim, o texto possui elementos temporais. Ele diz "quando" e "jamais". Estes sim são os marcadores temporais.

    Por isso, minha compreensão é que o texto fala de estados de conhecimento. É porque o nosso conhecimento é parcial que precisamos dos dons. Mas quando chegar a "perfeita varonilidade, a medida da estatura de Cristo" não haverá mais necessidade de dons, como Paulo explicou também em Efésios 4.
    O debate é no "quando". Pelo contexto do livro e da teologia paulina, entendo que é, não a vinda de Cristo per si, mas o estado das coisas trazido por esta vinda.

    É isso. Não é que eu esteja dizendo que você está errado. Mas que ainda não me convenceu de que "em parte" e "perfeito" se relacionam com tempo, e não com a palavra "conhecemos".

    Abração.

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  3. Pastor Romulo, muito legal que o sr compartilhou suas idéias nesse texto. Percebo que o sr mudou de posição quanto ao primeiro texto na revista do Sibima.

    Bem, não sei se concordo com os pa´rágrafos 5 e 6. Não me parece que "em parte" seja algo temporal. Essa expressão aparece 4 vezes nesse texto, duas delas relacionado a conhecimento. Eu outra ocorrência de "em parte", no capítulo 12, é dito "em parte membro do seu corpo". Ou seja, a expressão "em parte" diz respeito mais a "algo de um todo" do que a um aspecto temporal. O verso 13 acho que deixa isso mais claro.
    Paulo diz "Agora, conheço em parte". Vejo que Paulo usa uma expressão temporal "agora", mas o "em parte" modifica o conhecimento.
    Parece-me, portanto, que o "em parte" diz respeito ao estado de conhecimento, e não ao tempo.
    Quando o sr diz
    "A relação da expressão “em parte” (evk me,rouj) com o “perfeito”(tele,ioj) não é de “parte” com o “todo” com respeito ao dom, mas com respeito ao tempo (cf. v.12 - a;rti…to,te [2 vezes]). Não é o dom que é “em parte”, mas “o tempo” (o agora)"

    Eu modificaria e diria que a relação "em parte" e "perfeito" não dizem realmente respeito aos dons mencionados, como línguas e profecias, mas com respeito ao conhecimento. Não é o dom que é em parte, mas o "estado de conhecimento" que é.
    O ponto de Paulo, para mim, é que é porque nosso conhecimento é parcial que nós precisamos dos dons. Ele agumenta isso em Efésis 4 também. Deus nos deu dons "até que cheguemos à plenitude".
    Isso para mim fica bem claro no verso 13. "agora... em parte. Então..."
    Ou seja, o perfeito, entendo eu, é o estado de conhecimento pleno que Deus deseja de nós. O perfeito é a "medida da estatura", é o cumprimento final da nova aliança.
    Para mim, nem é o canon, nem a maturidade revelacional do NT, nem a vinda de Cristo, mas o estado de conhecimento final dos crentes, onde não precisaremos mais de dons, mas apenas do amor.

    O debate, então, para mim, gira em torno do "quando", que aí sim é uma clausula temporal. à luz da teologia paulina no próprio livro de Coríntios, o "quando" diz respeito ao estado de conhecimento que Cristo trará. O "perfeito" não é Cristo, mas o estado de conhecimento que ele trará.

    É isso.

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    1. Diz Netão,
      Vamos às respostas:

      1. O primeiro problema da sua argumentação é que Paulo não estaria contrastando TODOS os dons com amor, mas somente o ESTADO DE CONHECIMENTO. Talvez você esteja se amarrando no fato de que a expressão ek merous aplica-se a um verbo (conhecemos em parte). Ou seja, ao ATO (verbo) de conhecer. Porém, observe que Paulo muda de substantivo (prophêteiai /glôssai /gnôsis) para verbo (ginôskomen/ prophêteuomen) (cf. v. 8-9) sem nenhum problema (cf. também os substantivos em 8.1). Quando Paulo diz que “conhecemos em parte” ele está se referindo ao “dom” (substantivo) de conhecimento e não ao conhecimento dado pelo dom ou ao “ato de conhecer” (VERBO). Como o dom é “exemplificador” não se pode “esticar demais” no que o dom pode dar mais do que o próprio dom. O foco não é o conhecimento, mas o “dom de conhecimento”.

      2. O fato de “em parte” está paralelo com “agora” não indica que se pode substituir um pelo outro arbitrariamente. Os contrastes são: em parte – perfeito / Menino – Adulto / Espelho – Face a face. “Em parte” está, portanto, paralelo a “menino” e “Espelho”. Todas as ilustrações, contudo, estão subordinadas à “estrutura temporal” “agora…então”. Se não estiverem subordinadas a essa estrutura, a argumentação de Paulo de que amor nunca acaba simplesmente perderá o sentido. Vivemos “o agora” – um tempo de “meninice” e de “conhecimento indireto” e “em parte” (ou seja, não chegamos ao fim [teleios] ainda).

      3. A única referência a conhecimento está na ilustração do espelho. Porém, ela, como todas as ilustrações, está subordinada à “estrutura temporal”. Aqui é importante também lembrar que ek mepous não tem, em si, força temporal. Ele é assim considerando por causa da “estrutura temporal maior” que colabora na argumentação da eternidade do amor.

      4. Se o “em parte” é refere-se ao conhecimento, o perfeito é a maturidade desse “mesmo” conhecimento. Então teríamos o dom “em parte” e depois o dom “pleno”? É isso? Como então ele será aniquilado? Você poderia retrucar: “é somente o ‘conhecimento parcial’ que será aniquilado”. Ora, Paulo não pode estar falando de conhecimento de forma geral. Todos conhecem a Deus, diz o mesmo Paulo aos Romanos. Nunca deixaremos de ter conhecimento de Deus. O homem não somente sabe e saberá – todo joelho dobrará. O conhecimento nunca acabará. Isso é um fato. Mas volto ao que disse anteriormente, o contraste é entre o “dom de conhecimento” e o fim (teleios) dos tempos e não entre um estágio de conhecimento e outro estágio de conhecimento. Ai teremos continuidade e não descontinuidade (que é a ênfase dada no texto).

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    2. continuando...

      5. Não se pode pensar em “continuidade” (conhecimento parcial, estados de conhecimento) nas ilustrações, pois há “aniquilação” entre o “em parte” e “o perfeito”; há “aniquilação” entre a “infância” e a “fase adulta”. Nesses dois casos o verbo katargéô deixa essa nuança explícita. Com o conhecimento temos a eliminação do espelho. O único elemento que “continua” é o amor. Ele sobrevive aos dois “estágios temporais”.

      6. Na exegese podemos pecar por nos aproximar demais ou distanciar demais nosso foco. Se eu estou errando por distanciar-se demais (com a possibilidade de estar perdendo os detalhes), você está pecando por aproximar-se demais (perdendo o todo da argumentação). Explico: sua conclusão não ratifica do que Paulo propõe no texto, nem reconhece o caráter de descontinuidade das ilustrações.

      7. Paulo não fala da “necessidade” dos dons nesse parágrafo. O tópico é o amor. A necessidade do amor, sim, é o que Paulo argumenta. O grande paradigma defendido é a eternidade do amor. O que se diz dos dons é que eles não sobrevivem ao tempo. Absolutamente nada é dito que precisamos dos dons “agora” porque nosso conhecimento é parcial. É o conhecimento dado pelos dons que é parcial e indireto (espelho). O que temos sobre conhecimento é que, agora (incluindo o dado pelos dons), é indireto (por espelho), só.

      8. Sou muito grato por sua participação. Por causa dela mudei bastante o texto. Sinceramente acho que não fui claro. Mas prometo tentar mais. Se mudanças futuras forem precisas para melhor entendimento, as farei. As explicações posteriores poderão esclarecer possíveis dúvidas.

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  4. Pastor, obrigado pela resposta tão detalhada e atenciosa.
    De fato, pude reexaminar algum ponto ou outro em minha resposta.
    Talvez, eu não tenha compreendido bem o seu argumento, e agora compreendi melhor.

    No entanto, talvez eu não tenha sido tão claro, pois o sr tbm não compreendeu bem meu argumento.

    O sr disse "O primeiro problema da sua argumentação é que Paulo não estaria contrastando TODOS os dons com amor, mas somente o ESTADO DE CONHECIMENTO.".
    Não. Eu penso que Paulo está contrastando os dons com o amor. O propósito de Paulo é demonstra que vivemos em uma época onde são necessários dons, fé e esperança, mas que haverá um tempo onde nada mais disso é necessário. No entanto, o amor é necessário tanto agora quanto no futuro, pois ele "jamais acaba".
    No entanto, Paulo nos diz POR QUE os dons são necessários agora e não serão mais no futuro. E para mim, a resposta é que eles são necessários agora por conta do nosso ESTADO DE CONHECIMENTO parcial, o que bem representado nos três paralelos (em parte/perfeito; criança/adulto; espelho/face a face).
    Não sei se deixei isso bem claro, mas penso ter deixado agora.

    No entanto, pastor, fiquei em dúvida inicialmente pois no texto original o sr pareceu indicar que o "em parte" era uma partícula temporal. O sr disse no texto original ""A relação da expressão “em parte” (evk me,rouj) com o “perfeito”(tele,ioj) não é de “parte” com o “todo” com respeito ao dom, mas com respeito ao tempo" mas acertadamente, entendo eu, corrigiu para "Reconhece-se que a expressão “em parte”, em si, não tem denotação temporal, mas partitiva. Contudo, a estrutura maior da argumentação dá a ela uma conotação temporal."
    Concordo plenamente com isso. O "em parte" está dentro de uma estrutura temporal. O tempo presente é o tempo do "em parte", das "coisas de menino" do "ver como espelho". O tempo presente é o tempo do conhecimento parcial, mas o tempo futuro será o tempo do "perfeito", do "adulto", do "ver face a face", o tempo onde chegaremos, NÃO DE UMA MANEIRA CONTÍNUA, MAS DESCONTÍNUA" ao pleno conhecimento, segundo Efésios 4.

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  5. Outro ponto que o sr tentou me refutar foi quando disse "Se o “em parte” é refere-se ao conhecimento, o perfeito é a maturidade desse “mesmo” conhecimento. Então teríamos o dom “em parte” e depois o dom “pleno”? É isso? Como então ele será aniquilado?"
    Bem, aqui preciso ceder a um erro que cometi. Interpretei mal o texto quando eu disse "é porque conhecemos em parte que em parte profetizamos". Eu cedo ao fato de que neste verso, tanto "conhecemos" quanto "profetizamos" referem-se a dons.
    No entanto, assim como o contexto nos explica que o "em parte" está em uma estrutura temporal, o contexto IMEDIATO também me diz que Paulo está falando de estados de conhecimento, principalmente quando ele diz "Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido.". Esse trecho já não está mais no contexto de dons, mas de ilustrações, especialmente a ilustração do espelho. O espelho me dá um conhecimento parcial, o face a face um conhecimento pleno! É isso que Paulo está contrastando. NÃO É SÓ DOIS TEMPOS, um no espelho e outro no face-a-face, MAS É TAMBÉM dois estágios ou níveis de conhecimento, um parcial e outro pleno.
    A impressão que tenho no seu texto é que p sr reduz as ilustrações e os paralelos APENAS ao aspecto temporal, e esquece do aspecto de estágios de conhecimento.
    O outro contexto, como já mencionei, é o CONTEXTO PAULINO, onde em Efésios 4 ele fala da necessidade dos dons agora, mas de um tempo onde não mais precisaremos dele, na "PEFEITA varonilidade".

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  6. na sua réplica, o sr dedica um bom tempo à questão da continuidade e descontinuidade. Eu concordo que a ênfase de Paulo é na descontinuidade. Não é um processo do em parte para o perfeito.
    Mas eu afirma, TANTO é uma descontinuidade temporal ente o "agora" e o "então", quanto uma descontinuidade entre o "estado de conhecimento" presente e o futuro. Peguemos a ilustração do espelho. Se eu "agora" olho-me no espelho, eu tenho um conhecimento limitado. Mas se eu "então" olho face-a-face, meu conhecimento é completo. Não houve um processo temporal, mas dois tempos distintos. Assim também, não houve um processo de conhecimento, como se o espelho fosse aos poucos me esclarecendo. Também há descontinuidade.
    Por isso, toda a sua argumentação sobre descontinuidade pode se aplicar à minha interpretação do texto. Por isso, apesar de que dei extremo valor ao ensino de que "Na exegese podemos pecar por nos aproximar demais ou distanciar demais nosso foco." (não sabia disso), sua conclusão "sua conclusão não ratifica do que Paulo propõe no texto, nem reconhece o caráter de descontinuidade das ilustrações" não realmente reflete o meu entendimento, como demonstrei agora a pouco com a ilustração do espelho que tanto pode representar descontinuidade temporal, quanto de níveis de conhecimento.

    Por fim, é fato que Paulo está enfatizando a necessidade do amor. O amor jamais acaba, mas os dons acabarão. O amar jamais acaba, mas a fé acabará. O amor jamais acaba, mas a esperança acabará. No entanto, o tempo presente requer de nós os dons, a fé e a esperança. Paulo está contrastando a necessidade parcial dos dons, da fé e da esperança, com a necessidade perene do amor. Não deveríamos ENFATIZAR mais os dons do que o amor, pois os dons nós precisamos agora por causa do nosso conhecimento parcial, mas do amor precisaremos tanto agora quanto futuramente.

    O que o sr disse no final "É o conhecimento dado pelos dons que é parcial e indireto (espelho). O que temos sobre conhecimento é que, agora (incluindo o dado pelos dons), é indireto (por espelho), só."
    para mim foi excelente. Eu poderia dizer "o conhecimento dado pelos dons é "em parte" pois o tempo agora é assim, mas o conhecimento trazido pela consumação futura será "perfeito", pois nos trará a medida da estatura da plenitude de Cristo."
    O contraste é entre dois tempos E dois níveis de conhecimento.

    Sei que estou mexendo em leão com vara curta e, como se diz por aqui, estou mexendo com um "faca na bota". Mas a minha esperança de aprender é maior do que a de ensinar. Aguardo ansioso sua resposta.

    Abração.



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    1. Diz Netão,

      Sua participação só coopera para a evolução do artigo. Esse feedback é importantíssimo. Para mim esse é um diferencial positivo da literatura produzida pelos blogs.

      Para ser sincero, acho que concordamos em quase tudo. São somente alguns detalhes de discordância. Detalhes esses que se destacam pela ênfase dou a eles. Só.
      Acho que algumas colocações esclarecerão nossas discordâncias:

      1. Acreditamos em dois estágios de conhecimento. Isso é fato. Toda sua tese sobre “estágios de conhecimento” é exatamente o que Paulo diz na ilustração do espelho. Sim, estamos junto aqui. No entanto, diria que você tem duas fontes para sua conclusão e eu somente uma. Explico: acho não podemos extrair essa ideia da expressão “conheço em parte”. A presença de “conhecimento” em dois momentos no texto nos faz implicar rapidamente que se trata da mesma coisa – o que não é. Na primeira temos uma referência mais ao “DOM do conhecimento” (não ao conhecimento) e na segunda à “NATUREZA INDIRETA do conhecimento” – que por sua vez “não se limita” ao conhecimento dado “pelo dom”. Ambos findarão, mas eles não têm o mesmo referente. Observe que na ilustração do espelho, o “conhecimento” perpassa os estágios. O mesmo não se pode dizer sobre o “dom do conhecimento”. Paulo quer nos mostrar o que vai “acabar” e não o que vai continuar (a não ser o amor, claro). Na primeira colocação o que acaba não é o “conhecimento em parte”, mas o DOM. Lembrando que conhecimento nesse verso representa TODOS os dons. Assim, todos os dons são “em parte”, não somente o conhecimento. Posso dizer, baseado no v.9, que os dons de cura, por exemplo, também são “em parte”.

      2. Entendo quando diz que reduzo as ilustrações ao aspecto temporal. Mas, entenda Netão, vejo que é a “estrutura maior” que rege e revela o ponto da intenção autoral e que mais colabora para a tese de Paulo – o amor não acaba. Ela também explica melhor a relação entre as ilustrações. Segundo eu entendo, “o ponto de contato” entre elas é exatamente o contraste “temporal de descontinuidade”. Estou certo de que quando essa estrutura é ignorada ou desvalorizada (e/ou não enfatizada com faço), o texto não é entendido plenamente. É tamanha a importância dessa estrutura que a denomino de “PARADIGMA”.

      3. Não entendo que Paulo está preocupado em mostrar que os dons são NECESSÁRIOS; ele já fez isso no capítulo 12. O ponto é o amor. Você diz: “Paulo nos diz PORQUE os dons são necessários e não serão no futuro”. Na verdade Paulo diz o porquê do amor ser superior e necessário. Se eu dou toda essa “marra” para os dons, o contraste paulino se perde. Entende? Essa é minha luta Netão. Se valorizo o dom (dizendo que ele é necessário, por exemplo) perco o contraste com o amor. Os dons tem seu valor, sim, mas não é o ponto de Paulo aqui.

      É sempre bom contar com sua participação.

      Abraço em toda a família e na igreja.

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    2. Pastor, eu realmente estava escrevendo e pensando "eu sei que ele não discorda disso" e também "mas eu não discordo disso".
      Eu agora acho que entendi que não é que o sr estava dizendo que a relação "em parta/perfeito" é apenas temporal, mas que o aspecto temporal é o paradigma para se entender essa relação. tour de force! Excelente!

      Também percebo que dizer que os dons são necessários perde um pouco o argumento de Paulo. Eu corrijo então: O argumento de Paulo é exibir a superioridade do amor sobre os dons. O amor é perene, os dons temporários. Os dons existem no tempo presente para nos ajudar em nosso estágio limitado de conhecimento. Mas quando esse estágio passar, então eles não servirão mais. Mas o amor não. Ele é necessário agora e o será para sempre.

      Quero dizer que sempre aprendo demais com o sr.

      Grande abraço.

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    3. Diz Netão! Sinceramente, sou muito grato a você. Muito mesmo. Você me forçou a pensar mais e escrever melhor. Abração!

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  7. Pr. Rômulo sou um leigo querendo aprender.. muito me interessou esse paradigma e gostaria de mais esclarecimentos

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