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Sala de espera

Silêncio... Tosse... Passos... Folhas de livros rasgando o ar... Revista folheada... Espiro... Suspiros... Copo plástico retorcido… Novos passos...
– Querida, sabe informar se o senhor Realização Momentânea já chegou? – perguntou afobada e por sobre os ombros a recém-chegada na grande e central sala de espera do Centro Comercial Bios.
– A senhora já pegou a senha? – respondeu ríspida a recepcionista sem sequer dirigir o olhar para a senhora Futilidade. “Definitivamente esperar não é para todos; aliás, ainda não fui apresentada a quem espere com alegria”, pensou.
– Entendi. Futilidade sussurrou falando consigo mesma com ar de desprezo enquanto buscava um lugar para assentar-se: “Assistir o esperar dos outros parece que apodreceu os ossos ‘dessazinha’”, pensou.
Ding Dong.
Todos se voltaram automática e ansiosamente para o grande painel eletrônico que informava: Senha G Sala 4.19.
– Finalmente! Levantou-se rapidamente o jovem Libertinagem em direção a sala da doutora Lascívia.
“É sempre assim, dentes acesos na entrada e ombros caídos com o peso do vazio na saída”, pensou a recepcionista enquanto dirigia seu olhar incrédulo e depreciativo para o jovem que abria a porta do consultório estampando o sorriso idiota dos iludidos – prefácio do vazio.
Entre a abertura de uma porta e outra, vez por outra a atenção curiosa da recepcionista se voltava para uma figura destoante e estranha – apesar de comum. Tratava-se de um homem de estatura e porte insignificantes, roupas ordinárias, barba rala, cabelos castanhos, movimentação frugal – camuflado.
“Por que ele me chama tanta atenção?” perguntava a si mesma Desilusão – a recepcionista –, enquanto dirigia um olhar discreto para o homem misterioso. “Ele é tão comum; tão ordinário”. Com a testa enrugada e olhos semicerrados, Desilusão buscava uma explicação decente para seu incômodo mental. “Seriam seus óculos?”. Buscou, numa visão panorâmica, encontrar um elemento desarmônico que a orientasse na busca por sua resposta. Com uma atenção sintética pôde ver na grande sala de espera pessoas roendo as unhas, caminhando em círculos, chorando, gemendo, dormindo... Alguns rostos estampavam sorrisos que apontavam para o nada; outros ostentavam olheiras profundas, ainda havia aqueles que falavam com os espelhos... Percebeu, pela primeira vez, que alguns já estavam mortos – logo comunicou os responsáveis pela retirada dos corpos.
“Já sei”, quase saltou do assento. “Ele é o que está há mais tempo aqui. Pessoas entram e saem, vão e voltam, mas ele; ele nunca entrou em qualquer sala”. Por um tempo esse raciocínio pareceu ser uma explicação viável e satisfatória para a atenção dada a uma figura tão insignificante. Experimentou certo descanso mental.
Ding Dong.
Novamente olhares atentos ao painel da espera. Senha T Sala 4.2.
– Agora vai! Finalmente! – Gritou entusiasta o senhor Cobiça com punhos cerrados socando o ar e aos pulos. Era a décima quinta sala que ele entrava somente naquela semana. “Agora vai” era seu mote. As próximas portas revelariam que o “agora” ainda não chegara.
            Desilusão, com seu ceticismo característico, disse consigo mesma: “Não vai demorar muito. Logo ele sairá com o velho sorriso amarelo e apático que lhe é peculiar. Porém, rapidamente procurará uma nova porta. Que povinho previsível esse! Pra quê profetas se nada há de novo na grande sala de espera?”. A cada entrada Desilusão respirava fundo, olhava semicerrado para o alto com desdém enquanto meneava a cabeça negativamente.
Ding Dong. Senha T Sala 1.8.
Senhora Dubiedade levantou-se; parou, olhou pensativa para a sala 6.4 com a senha M – a sala do senhor Dinheiro; voltou seu olhar para a sala 10.37 – a sala da Família acima de tudo. Alternou o movimento mais umas quatro vezes e voltou a sentar. Depois dirigiu o olhar para mais duas outras salas.
– Senhora Dubiedade, por favor, afinal de contas, a senhora vai entrar ou não? – Gritou Desilusão impaciente.
Silêncio. Olhar perdido. Paralisia. Senhora Dubiedade permanecia estática com mais onze senhas na mão. Ela esperava entrar nas salas da Amizade, do Sucesso no trabalho, da Saúde, da Fama... Já estava ali há anos sem ter entrado em qualquer sala.
– Perdeu mais uma vez senhora Dubiedade!Gritou irada Desilusão. Sinceramente, não sei o que é pior, entrar feliz e sair decepcionado ou não entrar de jeito nenhum. A recepcionista apertou mais uma vez o placar luminoso. Senha P sala 10.28. Era a sala de Realização Momentânea. Futilidade entrou esnobe olhando com desdém por sobre o ombro no alto dos seus 1,50 metros.
Desilusão voltou sua atenção ao homem comum. Percebendo, já há um tempo o interesse da recepcionista, o homem misterioso quebrou o silêncio:
– Lembro-me muito bem quando você estava do lado de cá. O homem tinha uma voz forte, aveludada e quente. Ele folheava um livro velho sobre suas pernas cruzadas; seus óculos redondos repousavam na extremidade do seu longo nariz – a impressão é que estava sempre prestes a cair –, seu olhar, quando dirigido ao livro, dava a impressão de ter seus olhos fechados.
– Está...é...fal...ando...comigo? – gaguejou surpresa Desilusão.
– Quem mais esteve aqui esperando, transitou entre todas essas portas e – com olhos arregalados e acusadores sobre os óculos – desistiu?
Desilusão não sabia o que dizer. Selecionou um blend de mentira e verdade – combinação perfeita para compor um ataque áspero, destrutivo e “eficaz” – e disse:
– Não o conheço, não sei o seu nome, de onde veio; aliás, olhando agora para o senhor percebo que não há nada de interessante que despertasse meu desejo em sua pessoa. Em suma, permaneça em sua insignificância e espere ou morra de esperar como todo mundo.
– A mudança de assunto ou a fuga de uma conversa que busca a verdade é um recurso muito frágil nobre Desilusão. Quanto à minha pessoa, vou ser direto: sou filho do casal e Promessa. Minha dieta consiste de história e esperança; espero pelo que já veio e pelo que não vejo; olho para trás e para frente ao mesmo tempo, contudo, meu olhar é sempre focado. Sou como árvore: cresço para cima e para baixo. Espero pelo que não tenho enquanto aproveito o que me é disponível. Não espero uma porta, mas pela Porta. Alguns dizem que vivo numa tensão. Sim, é verdade. Mas, prefiro dizer que estou no limiar.
Desilusão olhou com desprezo. E balbuciou falando consigo mesma:
– Estou cansada dessa retórica estérea. Mero jogo de palavras.  
Como não viu qualquer sinal de refutação real às suas palavras, o homem misterioso cutucou a recepcionista enquanto olhava para livro com o olhar baixo aparentando indiferença:
– Não ache que por estar na recepção você não espera por algo. Você não é uma espectadora passiva. Ah, isso não é mesmo! Não há criatura que não espere. Toda humanidade está aqui. Isso não muda somente por estar “do outro lado”.
– Cansei de esperar! Interrompeu afobada. É isso! Cansei!
Parou. Pensou. E, em meio tom disse:
– Não que meu cansaço ou descrença fosse o suficiente para querer adentrar a porta da morte antes de receber minha senha – a senha que poucos pedem, mas mesmo assim chega.
– Não pense que podemos medir o tamanho da esperança de alguém por isso. Já vi muitas pessoas indo para a porta da morte sem senha; contudo, estou certo de que tinham mais esperança que você. Os invasores da porta da morte não são todos iguais. Não existe uma única explicação para arrobarem a porta indesejada. E, garanto, a falta de esperança não é a única explicação. Em alguns casos o gatilho é acionado enquanto se espera o melhor. Não é uma questão de se a esperança está ou não presente, mas em sua intensidade e relação com outras virtudes e vícios. Há pessoas sentadas na grande sala que existem – só isso. São mortos vivos. Só esperam a morte. Só. Você é uma delas senhora Desilusão.
 Silencio.
Ding Dong. Senha 1C. Sala 15.55.
Ding Dong. Ding Dong. Ding Dong...
Desilusão, confusa, apertava repetidamente o botão. “Que diabo de porta é essa?”, se perguntava. 15.55? Que número é esse?
O homem comum lentamente levantou-se; fechou os olhos suavemente, respirou fundo enquanto estampava um leve sorriso. Dirigiu-se numa postura ritual a Desilusão fixando firme e amigavelmente nos olhos da recepcionista. Ele estava consciente de que seriam suas últimas palavras. Não argumentou. Simplesmente proclamou:
 – No início só existia uma porta e uma grande e única sala. Nosso primeiro pai a rejeitou. Em rebeldia ele ergueu as primeiras paredes e, desde então, várias salas e portas surgiram tentando usurpar A única Porta e A Grande Sala.
O homem desconhecido pausou entendendo ser necessário a fim de que suas palavras fossem devidamente digeridas. E continuou:
– Percebi seu nervosismo devido a ignorância quanto à denominação da sala da minha senha – sala 15.55.
Aproximou do ouvido de Desilusão e sussurrou:
– Existem mais salas que você ignora. A O Centro Comercial Bios é maior que suas expectativas ou sua percepção das esperanças pobres dos que testemunha todos os dias.
Nova pausa. Desilusão acompanhava atenta. Sofria com o confronto. Cada palavra machucava, mas ainda assim desejava ouvir.
– Não sabe que porta é essa? A 15.55? É sala da morte e da vida; a sala da morte que foi morta pela vida. Você não consegue ver porque precisa passar por outras portas. Entrar em salas que não refletem seus desejos, ansiedades e decepções. Salas criadas para retomar o caminho da Grande Sala. Criadas por uma vontade alheia a sua e a de qualquer pessoa presente na grande sala de espera.
O homem comum retirou do seu livro velho um pequeno papel escrito “Senha R”. Logo em seguida tomou o lugar de Desilusão e assumiu o papel da recepcionista apertando o botão de chamada do grande painel luminoso. O painel revelou: Senha R Sala 1.16.
– Que sala é essa? – retrucou Desilusão.
– É a sala da boa notícia, da satisfação, do contentamento – da plenitude.
– O que tem lá?
– Mais do que desejou para você e menos do que pensou sobre você.
– O que ela diz sobre mim?
– Posso garantir que conhecerá muito sobre você. Contudo, logo saberá que ela não é sobre você. Ela ofensivamente amorosa. Na medida em que você aprecia a beleza da dessa sala, esquecerá de você mesma. Em outras palavras, experimentará uma dose saborosa e doxológica de narcisismo invertido.
– E as outras salas?
– Perderão o brilho. Verá como verdadeiramente são: portas velhas, enlodadas e tombadas que escondem salas sujas, enlameadas e em ruínas. Verdadeiras bocas devoradoras; assassinas de almas como deuses falsos – como as falsas esperanças.
– E a Grande Sala?
O homem apontou para o papel dado a ela e fechou a conversa:
– Senha R, sala 1.16.
O homem simples saiu acompanhado de perto pelo olhar perseguidor de Desilusão. Ela agora sabia porque o homem ordinário chamava tanto sua atenção. Ele sabia pelo que espera. Era sólido – palpável. “Isso faz toda diferença”, pensou. Sua memória foi revigorada e pôde reviver, como em um filme, alguns momentos da vida do homem misterioso na grande sala de espera. No seu filme mental ela pode ver que ele esperava pelo que já podia usufruir. Era real. Ele tinha o sorriso de quem estava na Grande Sala mesmo que ainda não. Não era somente a certeza que fazia a diferença, mas o desfrute antecipado alimentava o vigor no esperar. Sua certeza nascia da realidade experimentada. “Todos esperam”, pensou. “Pelo que espero?”, questionou a si mesma. Olhou para senha presenteada e sussurrou “Senha R, sala 1.16. A boa notícia”.

O Protestante Desgalatado.

Se você é protestante e se incomoda com críticas ao Catolicismo Romano categorizando-as como iconoclastas, fora da ordem, supérfluas e exageradas, é porque sua agenda está mais comprometida com questões políticas, éticas e culturais do que com a essência e a proclamação do evangelho.
Sim, estamos juntos na luta contra o aborto e, no caso de alguns católicos, na luta por um estado menor; temos uma visão próxima na educação e compartilhamos muito do valor dado ao modelo bíblico da família. Contudo, se em nome dessas lutas você se priva (por medo, pragmatismo, imediatismo ou para se manter no “time do bem”) de críticas a um sistema que sustenta o outro evangelho combatido com rigor e vigor pelo apóstolo aos gentios, sua escatologia está míope ou é monstruosamente estrábica.
Como bem colocou Geerhardus Vos, a “escatologia precede a soteriologia”. Evangelho envolve promessas que direcionam nosso olhar para cima e para frente. Diria mais: as Escrituras (e.g., 2 Pedro) nos alertam de que há uma relação direta entre escatologia e moral. Comprometa a primeira e negociará a segunda. Dê mais valor as lutas temporárias do mundo visível e logo ficará indiferente e cego para o eterno, para o juízo eterno, para as promessas eternas – para o Evangelho.
Acorda, um católico romano não vai abandonar suas lutas (e.g., contra o aborto) porque você o criticou ou colocou com clareza as cartas na mesa. Você não “perderá” um militante por criticá-lo; no máximo, ele será lembrado de que você é diferente dele. Diferença gritante que divide o maldito do bendito – o judaizante do cristão. Não esqueça, os judaizantes que ameaçavam o cristianismo na Galácia do primeiro século entrariam com facilidade no mastodôntico e deformado guarda-chuva da Cristandade (eufemismo para “aqui cabe heresia contanto que tenha o nome de Jesus”). Deixe isso claro, caso contrário, os representantes do catolicismo terão mais privilégios do que o hipotético anjo celestial que prega outro evangelho. Aí estará claro que sua única e maior luta será pelo que passa. Diagnóstico: você é um protestante desgalatado. Tratamento único: uma dose cavalar de Gálatas.

Uma palavra sobre a lei de Moisés

Introdução

A lei de Moisés. Sem dúvidas, um assunto controverso no cristianismo. Enquanto alguns resistem a qualquer apelo direto ao AT como um guia da vida cristã ou a vida na igreja (e.g., Lutero); outros entendem que a lei deve servir de guia no governo da igreja (e.g., Heinrich Bullinger). Cada teólogo de renome tem algo a dizer sobre a lei. Para Calvino, o principal uso da lei é o chamado “terceiro uso” – o uso teológico. Barth, por exemplo, Lei é o conteúdo do Evangelho. Daniel Fuller afirma não haver elementos contrastantes no Evangelho e na Lei – ambos são um todo contínuo.

Devido ao indiscutível desacordo para com a função da Lei de Moisés na igreja, faz-se necessário uma meditação sobre o assunto. É fato que meu objetivo não é apresentar um tratado sobre a lei, mas simplesmente introduzir o leitor ao assunto e a algumas de suas principais nuanças. Espero poder ajudá-lo.

Visões quanto à Lei (cf. GUNDRY, 2003).

1. Reformado Não-Teonômico: como os reformados, eles dividem a lei em três partes: moral, cerimonial e civil. Tal divisão é vital para a argumentação dos três primeiros pontos de vista. Para os não-teonômicos, “as leis cerimoniais, as leis civis e o código penal foram anulados, e a lei moral [os dez mandamentos] recebeu mais esclarecimentos na pessoa e nos ensinos de Jesus Cristo” (VANGEMEREN, in: Lei e Evangelho, 2003, p. 39 - itálico nosso). A continuidade da lei se resume aos dez mandamentos.

2. Reformado Teonômico: “…as leis permanentes do AT continuam moralmente obrigatórias no NT, a não ser que sejam abolidas ou modificadas por revelação posterior” (BAHNSEN, in: Lei e Evangelho, 2003, p. 154). Para estes, as únicas leis abolidas foram as leis relacionadas aos sacrifícios e à pureza.

3. Lei com estímulo à santidade: nega a concepção antagônica entre lei e evangelho. Os contrastes apresentados nas Escrituras não são entre o evangelho e a lei, mas entre o evangelho e a perversão da lei pelos judeus (legalismo). Como nas visões apresentadas acima, a divisão da lei em três partes é crucial para essa visão, pois “se a lei continua de alguma forma sendo autoridade direta para o crente, precisamos concluir que algumas das suas leis precisam ser colocadas em categorias diferentes de outras” (MOO, in: Lei e Evangelho, 2003, p. 242 – itálico nosso).

4. Dispensacionalista: a lei é um todo e sua relação direta com o povo de Deus chegou ao fim com a vinda de Cristo e a igreja. As conclusões teológicas são iguais as do luterano modificado. Porém, eles chegam por “caminhos exegéticos e teológicos” diferentes.

5. Luterano Modificado: como no luteranismo tradicional, Lei e Evangelho são conceitos antitéticos que coexistem ao longo de toda Bíblia (MOO, in: Lei e Evangelho, 2003, p. 237). No primeiro temos o que Deus exige de nós e no segundo o que ele nos dá. A modificação da visão luterana tradicional está na natureza do contraste entre Lei e Evangelho. Essa escola defende um contraste histórico. Há descontinuidade entre a lei mosaica e o evangelho de Cristo. Toda lei mosaica tem seu cumprimento em Cristo. Esse cumprimento significa que a lei de Moisés não é mais a fonte direta e imediata, ou o juiz da conduta do povo de Deus. Eles são aplicáveis a nós “na medida em são passados para nós por meio de Cristo” (MOO, in: Lei e Evangelho, 2003, p. 95). Para não serem confundidos com antinomistas, eles afirmam que ainda estão sujeitos à lei de Deus, mas não à lei mosaica.


A Divisão da Lei: Muitos dividem a Lei de Moisés em três partes: moral, cerimonial e civil. Tal divisão é questionável e perigosa, pois pode incentivar erros exegéticos quando tratada como um pressuposto na prática interpretativa. Além disso, a divisão da lei em três partes é desconhecida tanto nas Escrituras (AT e NT) como na antiga literatura rabínica (cf. DORSEY, 1991, p. 329). O próprio Senhor Jesus tratou a lei dessa forma – como um todo (cf. Mt. 23:23). Categorizar uma parte lei como “moral” é, no mínimo, curioso. Não seria toda a Lei moral? (ibid., p. 330). A divisão aqui questionada não é divisão de importância, pois reconhecemos que essa existe, mas àquela que reparte a lei em partes “opcionais” ou “temporárias”.

Para justificar a divisão da lei, alguns têm recorrido aos contrastes como os que encontramos em Oséias 6:6: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. Quando a atitude de coração é colocada em contraste com os rituais como em Oséias 6:6, a intenção “não é descartar os rituais como opcionais ou passíveis de serem ignorados” (MOO, in: Lei e Evangelho, 2003, p. 244 – itálico nosso).

Por fim, o ônus da prova está com aqueles que defendem a divisão.


O uso do vocábulo “Lei” (nomos) em Paulo
(cf. MOO, 1983, pp. 75-85):

1. Das 119 vezes que Paulo usa a Lei, nenhuma se encontra no plural. Assim, Paulo trata da Lei como uma entidade ao invés de uma série de mandamentos.

2. A presença ou não de artigo antes de nomos tem levado alguns estudiosos a crer que a presença do artigo é uma referência a lei de Moisés e a ausência do artigo à lei em geral. Há dois problemas com tal concepção: (a) O uso claro de Josefo, Filo e da LXX do anartro (substantivo sem artigo) referindo-se claramente a lei de Moisés. (b) Considerações sintáticas também explicam a variação do uso de nomos.

3. nomos significando “sistema”, “ordem”, “autoridade” sempre é construída no genitivo.

4. Paulo usa nomos para se referir a Palavra de Deus como um todo (cf. Rm. 3:19; 1Co. 14:21). Uma característica dessas ocorrências é o uso de uma forma de grafo e lego com nomos.

5. A grande maioria do uso Paulino de nomos faz referência a mandamentos, requerimentos e principalmente a um corpo ou sistema de mandamentos ou requerimentos exigidos do homem.

6. Ocasionalmente Paulo usa nomos como referindo-se a vontade de Deus.

7. Para se entender a doutrina da lei em Paulo é vital saber que ele usa nomos referindo-se a lei de Moisés.

8. Lei refere-se a mandamentos mediados por Moisés.

9. A Lei é um todo indivisível (Gl. 5:3).

10. Alguns (e.g., Cranfield) têm dito que Paulo usa nomos com o sentido de legalismo visto que não há palavra grega para tal conceito. Entretanto, a linguagem grega providencia recurso suficiente para expressar esse conceito (cf. Gl. 3:11, 18, 21; Rm. 4:13, 14; 10:3, 5; Fp. 3:9). Geralmente o que leva as pessoas a considerarem tal significado para no,moj é evitar uma avaliação negativa do AT por Paulo.

Lei como AIO: Uma das funções da lei é servir de “aio” até a chegada de Cristo. As traduções portuguesas têm traduzido a preposição grega eis como “para nos conduzir a Cristo” (Gl. 3:24 – ARA, ARC, TB) trazendo a idéia a condução ao invés de tempo. Esse é o texto usado para falar do uso teológico da Lei. Para Calvino, a Lei foi dada para mostrar a necessidade de Deus e, assim, conduzi-las a Cristo. Para que isso fosse verdade era preciso que o verso em questão trata-se da história do indivíduo e não de um povo ou da salvação. E segundo, que a preposição eis não tivesse força temporal. Há, contudo, algumas razões para crermos diferente:

(1) O contexto de Gálatas claramente é histórico e/ou temporal. Paulo faz referência a três estágios na história da salvação: a promessa a Abraão, a Lei de Moisés e a Fé em Cristo. Paulo não está falando da experiência do indivíduo, mas da função da lei na história do povo de Deus. A nuança pessoal que isso possa trazer não é o foco de Paulo – seu foco é corporativo. Provavelmente a palavra “nosso” faz referência a Paulo e seus patrícios judeus e não a Paulo e os irmãos da Galácia. Os versos 23 e 25, ou seja, o contexto imediato, também traz elementos temporais: “antes (pro) que viesse a lei” (v.23); “tendo vindo” (v.25).

(2) A preposição pode ser traduzida pode envolver objetivo ou lugar (“em direção a”, “para”); pode ser um marcador de grau; um marcador de objetivo envolvendo aspectos afetivos e abstratos; pode ser marcador de um ponto de referência e pode está ligada a tempo (“a”, “até”, “em”) cf. BDAG. Como todo contexto geral e imediato é histórico ou temporal, a melhor tradução seria “até” ao invés de “nos conduzir”. O NTLH e a NVI entenderam assim quando traduziu “a lei ficou tomando conta de nós até que Cristo viesse…”.

(3) A palavra paidagogos pode significar “guia”, “guardião”, “líder” (cf. BDAG). Como em toda ilustração, devemos buscar o “ponto de contato” entre a ilustração e o objeto ilustrado (aio e lei). A palavra grega e sua ligação com a palavra portuguesa “pedagogo” pode nos levar a pensar em um professor (cf. KJV, AV). Porém, o paidagogos não ensina (cf. BOICE). Se esse fosse o caso, a palavra didaskalos seria a utilizada. Para Moo (1983, p. 368) paidagwgo,j era alguém que tomava conta da criança, uma babá. Daí a preferência de Keener (2005, p. 546) e Vincent (vol. IV, p. 128) em traduzir paidagogos com “guardião”. Sua função está ligada à custódia e a disciplina e não à educação ou instrução. Em Lysis, Platão revela que o paidagogos “controlava” os jovens, no caso, o próprio Lysis. Na obra de Platão isso é motivo de ironia por parte de Sócrates – um escravo controlando o seu dono. Aristóteles afirma que nossa parte apelativa deve ser controlada por princípios, assim com um garoto deve viver na obediência de seu paidagogos (Nic. Etic. 3.12.8).
Aqui as palavras de Boice nos ajudarão:

O ponto de Paulo é que a responsabilidade cessou quando a criança entrou a completude de sua posição com filho, tornando-se um adulto reconhecido pelo rito formal da adoção por seu pai. “A Cristo” [“nos conduz a Cristo”] não deve ser tomado no sentido geográfico como se o pedagogo estivesse conduzindo a criança a um mestre, como alguns tem implicado. A referência, como no verso precedente, é temporal.

Para Rendall “a posição de uma enfermeira em relação a uma criança aproxima-se mais do que a imagem de um mestre ou tutor ao escritório do paidagogos ( pois ele […] era designado a cuida-las e salvaguarda-las [...]” (RENDALL, 2002, p. 173 – itálico nosso).

A lei então guardava o povo até a vinda de Cristo. Assim, podemos entender primeiramente o limite temporal da lei e sua natureza: guardar ou manter a identidade nacional do povo de Israel.

Conclusão

A lei em algum sentido foi abolida na comunidade cristã (cf. Gl. 3:19, 24, 25 “até”). Dorsey (1991, pp. 325-9) mostra que há vários elementos temporais atrelados à lei. Realmente, na forma escrita, as leis de Moisés foram claramente temporais visto que são impraticáveis em outras realidades devido ao clima (Ex. 29:22); à cultura (Dt. 22:8); à cultura religiosa (muito das regras instituídas aos levitas está diretamente ligada aos povos vizinhos [e.g., altar de holocausto]); à estrutura governamental da igreja ser totalmente diferente de Israel que era uma nação (e.g., leis relacionadas aos reis, às cidades-refúgio; ao tratamento dado aos prisioneiros de guerra, etc.) à negação categórica do NT no tocante a descontinuidade do culto sacerdotal (Hb. 8:18). Como a lei é um TODO, não podemos pensar que somente a Lei sacrificial ou cerimonial foi abolida. Não existe essa lei, existe uma única LEI, a de Moisés.

Não está se afirmando, entretanto, que o cristão está livre de qualquer Lei – existe a lei de Cristo – a lei eterna de Deus Cf. Gl. 2:19-20. A crítica de que, negar o uso da lei mosaica é o mesmo que ser legalista (pois se criará outras leis não expressas nas Escrituras) ou antimonista (lei nenhuma), só deve ser aceita ou confirmada se eu acreditar que a lei de Moisés é toda e a única revelação de Deus aos homens. Temos o NT. Como, então, encarar os preceitos da Lei mosaica? Bem, como toda a Palavra é útil (2 Tm. 3:16), devemos buscar princípios que permeiam os mandamentos.

BIBLIOGRAFIA

BOICE, James Montgomery Boice. Galatians. In: GAEBELEIN, Frank E. (ed.) The Expositor´s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984

DORSEY, David A. The Law Of Moses And The Christian: A Compromise. JETS 34/3 September 1991, pp. 321-34.

GUNDRY, Stanley (ed.). Lei e Evangelho – 5 pontos de vista. São Paulo: Editora Vida, 2003, 444p.

MOO, Douglas J. "Law," "Works of the Law," and Legalism in Paul. WTJ vol 45-1, spring 1983, pp. 73-100.

RENDALL, Frederic. The Epistle to the Galatians. In: NICOLL, Robertson (ed.). The Expositor´s Greek Testament, Hendrickson Publishers, 2002, volume III, 547p.

VICENT, Marvin R. Word Studies in the New Tetament, Hendrickson Publishers, IV volumes.

Perfil

Minha foto
Rômulo Monteiro alcançou seu bacharel em Teologia (Seminário Batista do Cariri – Crato/CE) em 2001; concluiu seu mestrado em Estudos Bíblicos Exegéticos no Novo Testamento (Centro de Pós-graduação Andrew Jumper – São Paulo/SP) em 2014. De 2003 a 2015 ministrou várias disciplinas como grego bíblico e teologia bíblica em três seminários (SIBIMA, Seminário Bíblico Teológico do Ceará e Escola Charles Spurgeon). Hoje é professor do Instituto Aubrey Clark - Fortaleza/CE) e diretor do Instituto Bíblico Semear e Pastor da PIB de Aquiraz.-CE Casado com Franciane e pai de três filhos: Natanael, Heitor e Calebe.